Radiohead emociona e encanta público no Rio com espetáculo irretocável

Por Danielle Barbosa
Foto: Tuiki Borges / Midiorama 

O Rio de Janeiro recebeu na última sexta-feira, 20, o Soundhearts Festival, evento que teve edições no Brasil, Colômbia, Argentina e Peru, com a banda britânica Radiohead como headliner. Essa foi a segunda vez que Thom Yorke, líder do grupo, acompanhado de Ed O’Brien (vocal de apoio e guitarra), Jonny Greenwood (guitarra e teclado), Colin Greenwood (baixo e teclado) e Phil Selway (bateria e percussão) veio à América do Sul, desta vez com a turnê do mais recente trabalho por eles disponibilizado, “A Moon Shaped Pool”, lançado em 2016. Como na última vez, em 2009, a vinda dos ingleses de Oxford se limitou às capitais paulista e carioca no Brasil.

Nove anos entre uma apresentação e outra é um mundo de distância quando falamos de música. Quem era adolescente na época da primeira passagem do grupo por aqui, já beira os seus vinte e poucos anos; os que eram quase ‘trintões’ em 2009, já estão na faixa etária dos 35-40 anos. Isso explica muito o público bastante diversificado que esteve presente na Jeunesse Arena, no Rio, e no Allianz Parque, em São Paulo. Apesar da longa espera, apenas dois trabalhos foram lançados oficialmente – além do projeto “OKNOTOK” desde então pelo Radiohead: os álbuns “The King of Limbs”, em 2011 e “A Moon Shaped Pool”, em 2016.

A ansiedade do público para rever Thom Yorke e cia – ou vê-los pela primeira vez, para aqueles que perderam a oportunidade em 2009 – era tamanha que meia hora antes da banda subir ao palco, por volta de 21h30, a arena localizada na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, já estava com pistas Premium e comum completamente abarrotadas de uma multidão ávida pela profundidade sonora e melódica que só o Radiohead é capaz de proporcionar. Goste ou não deles, o que a banda faz é singular e impactante.

Foto: Tuiki Borges / Midiorama

Do alto de seus 1,66m de altura, Thom Yorke é um gigante no palco. Mesmo com poucas interações verbais além dos clichês “obrigados”,  o músico mostrou como se faz para orquestrar uma plateia a seu favor apenas com linguagem corporal. Fosse agradecendo o público com reverências ou aplausos ou dando pulinhos, rebolando e dançando no palco nas canções mais agitadas, como “Ful Stop” “Identikit”, o artista de 49 anos deu uma aula de presença de palco, imposição de voz (e que vocais e timbre impecáveis!) e ritmo de apresentação, que poucas vezes teve longas pausas entre uma canção e outra – só nos dois bis mesmo. Além disso, Thom ~humilhou~ a nós, pobres mortais, ao tocar com maestria uma gama diversificada de instrumentos: do violão acústico ao piano, passando pela guitarra, teclado e elementos de percussão.

Mas apesar de todo frisson e agitação que muitas batidas trazem, assim como os enlouquecedores (no bom sentido!) riffs de vários trechos de “Paranoid Android”, o forte do Radiohead são os hits introspectivos, com um certo tipo de adoração pelas composições ‘depressivas’ e alucinógenas, com uma dose de amor nas letras. Mais uma vez, vale ressaltar: encare cada palavra escrita nesse texto, por mais forte que seja o termo, da melhor forma possível. Para um real fã da banda, é definitivamente impossível ver o Radiohead ao vivo e não se teletransportar para momentos que façam alusão a situações que tenham experimentado na pele; assim como é difícil não se ver imerso dentro do show, meio que sem querer, sem perceber… É aquilo: quando a pessoa percebe, já está com os olhos fechados, balançando a cabeça, murmurando as palavras quase involuntariamente e o corpo todo vibrando e sentindo o poder da música. Impressionante e de arrepiar, literalmente.

O set, apesar de longo – com vinte e sete músicas no total – é perfeito para se deliciar em um passeio pela carreira de mais de 30 anos dos experientes músicos. Não, você não se cansa, apesar das quase 2h30 de apresentação. É tudo muito envolvente, transmitido à plateia com uma leveza que parece que é fácil dar conta de tudo ali em cima do palco, incluindo questões técnicas e cenográficas que contextualizam o que cada música selecionada para integrar o setlist quer transmitir. A iluminação, aliás, merece nota dez! Perfeita em todos os momentos, fosse pra trazer a atmosfera para algo mais intimista, como em “True Love Waits”, apenas com o vocalista no palco, ou nas faixas que trazem as influências mais da música eletrônica que o Radiohead gosta bastante de explorar. A cada clique, uma foto mais bonita que a outra na lente dos fotógrafos.

Foto: Tuiki Borges / Midiorama

Ainda com relação ao repertório, uma curiosidade que pode ser observada em todo show do Radiohead é que os artistas fazem questão de transformar cada apresentação em algo único e, mesmo que o clichê “Todo show é diferente” exista e seja praticado pela ampla maioria das bandas, poucas são aquelas que realmente dão uma atenção especial para o set em cada venue que irá se apresentar. Dos seis shows que o grupo fez na América do Sul, nenhum deles teve o setlist todo igual. Se formos olhar apenas para Rio e São Paulo, algumas mudanças de grande peso aconteceram: no Rio, rolou “Karma Police” e “True Love Waits”; em São Paulo, não, mas “Fake Plastic Trees” integrou a listagem, diferente da capital carioca. No Peru, por outro lado, teve “Creep”, primeiro grande hit da carreira do Radiohead e que não entrou em nenhum set apresentado no Brasil. Há quem ame e odeie essas diferenças no setlist, por se sentir mais ou menos privilegiado, muito baseado nas preferências pessoais com relação às músicas favoritas da banda.

A ‘saudade’ era tanta que a multidão fez o seu papel de forma brilhante. Entre palmas, suspiros, pulos e refrões que fizeram eco acompanhando a voz de Thom, as pessoas presentes no show foram – com certeza – o sexto integrante da banda, transformando o Radiohead em um sexteto e não um quinteto. Muitos pareciam estar vivendo, ali, naquele momento, um sonho aguardado por muitos anos (e não é difícil imaginar o porquê disso, né?), um conto de fadas, uma experiência que levarão pro resto da vida. Lágrimas? Tiveram. Em abundância.

Entre um bis e outro, a difícil tarefa de ir se despedindo aos poucos da banda foi trazendo cada vez mais urgência e apelo na histeria do público, que fez um coro de “Radiohead! Radiohead” logo ao fim de “Idioteque”, que fechou a primeira parte do bis, e estendeu até o infinito os versos finais de “Karma Police”, última música da noite. A capella mesmo, no coração pulsando forte, mesmo com a banda já adentrando o backstage. Ali, naquele momento, nenhum outro sentimento pairava no ar se não amor e gratidão. Amor pela música, pela banda e pelos anos que cada uma das – aproximadamente – 10 mil pessoas que ali estavam viveram com o Radiohead. Sinergia e sintonia pura!

“Muito obrigado por terem vindo!”, disse o econômico em palavras – mas generoso em propiciar sensações – Thom Yorke, ao se despedir dos fãs cariocas.

Nos resta torcer para que a banda retorne antes do fim da próxima década, né? É só isso que a gente clama!

Setlist:
1. Daydreaming
2. Ful Stop
3. 15 Step
4. Myxomatosis
5. Lucky
6. Nude
7. Pyramid Song
8. Everything in Its Right Place
9. Let Down
10. Bloom
11. Reckoner
12. Identikit
13. I Might Be Wrong
14. No Surprises
15. Weird Fishes/Arpeggi
16. Feral
17. Bodysnatchers

Bis:
18. Street Spirit (Fade Out)
19. All I Need
20. Desert Island Disk
21. Lotus Flower
22. The National Anthem
23. Idioteque

Bis 2:
24. True Love Waits
25. Present Tense
26. Paranoid Android
27. Karma Police


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