Paul McCartney enlouquece fãs no Allianz Parque com show explosivo

Por Carla Maio
Foto: MRossi/T4F (Divulgação)

E não foi apenas as chamas, os fogos de artifício e os fortes estouros que impressionaram incrédulos e fãs convictos. O fato é que a apresentação de Sir Paul McCartney na noite do último domingo (15), no Allianz Parque, em São Paulo, foi marcada por inúmeros momentos explosivos, desde as canções que embalaram gerações à brilhante carreira do músico como baixista do Fab Four. Sua trajetória como letrista singular e multi-instrumentista extrapola todos os limites humanos, um homem cuja genialidade e magia o permitem exibir pleno vigor e boa forma aos 75 anos.

One on One, turnê em comemoração aos 50 anos de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, considerado um dos álbuns mais emblemáticos da história do rock, foi lançada no ano passado e já encantou centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo. No Brasil, o inglês faz quatro apresentações, e depois de Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte, segue para o encerramento na Arena Fonte Nova, em Salvador, no dia 20 de outubro.

Nessa empreitada de emocionar os fãs, Paul McCartney não está sozinho; ele conta com um time de peso, músicos inestimáveis que o acompanham há mais de 10 anos, caras como o tecladista Paul Wickens, o baterista Abe Laboriel Jr, o guitarrista Rusty Anderson e Brian Ray, que reveza com Paul entre o baixo e a guitarra.

O segredo da juventude? Bom humor, é claro!

Foto: MRossi/T4F (Divulgação)

Era exatamente 21 horas quando Paul e banda romperam o palco do Allianz Parque, trazendo muita energia e a promessa de mais de 3 horas de espetáculo bem humorado e cheio de tiradas entre Paul McCartney, os músicos e os fãs. Apesar de um pouco rouco, Paul domina com toda a maestria as canções que o tornaram o grande ídolo que é. Logo, os primeiros acordes arrebentam e trazem a animada “A Hard Day’s Night” e o Allianz sofre o primeiro impacto com uma explosão frenética de loucura e alegria.

Essa foi a primeira de uma série de canções dos Beatles que vieram na sequência, uma retrospectiva incrível que trouxe ainda canções como “Can’t Buy Me Love”, “Drive my car”, “I’ve Got a Feeling“, “Love Me Do” (uma homenagem ao produtor George Martin, falecido no ano passado), “And I Love Her”, (com direito a reboladinha sensual do ex-beatle), “Lady Madonna”, “Eleanor Rigby”, “Something” (que ao som do Ukulelê, Paul dedica a George Harrison, o compositor) entre tantas outras, num total de 26 músicas do quarteto.

Do álbum aniversariante, não faltaram também “Being for the Benefit of Mr. Kite!” e “A Day in the Life”, esta última com um trecho da animada “Give Peace a Chance”, homenagem a John Lennon que fez o Allianz Parque se transformar num todo multicolorido com centenas de bexigas.

Nesse fantástico ir e vir de composições, Paul McCartney ressaltou ainda seu percurso à frente do Wings, banda formada pelo ex-beatle em 1971. Desse período, os fãs curtiram preciosidades como “Junior’s Farm”, “Jet”, “Nineteen Hundred and Eighty-Five”, “Band on the Run”. Ao final de “Let Me Roll It”, canção repleta de energia e swing, Paul e banda emendaram “Foxy Lady”, potente tributo ao mestre Jimi Hendrix.

Simpático e extremamente atencioso com o público, Paul investiu no “bom e velho português” para interagir e tornar a comunicação, digamos assim, mais fluente, e por que não dizer, hilária: “Então São Paulo, oi Sampa, tudo bem? Estamos muito felizes por estar de volta, esta noite, vou tentar falar um pouco de português”, promete.

Sensível, McCartney toca “My Valentine”, do álbum Kisses on the Bottom, de 2012, música inspirada em sua atual esposa, Nancy Shevell, presente à apresentação em São Paulo. Do álbum de 1970, da carreira solo de Paul, a homenagem à Linda McCartney não tardou e veio marcante em “Maybe I’m Amazed”, explosão de sentimentos que arrancou aplausos efusivos do público. Atencioso, Paul se certificou que os fãs, em todos os cantos do Allianz Parque, estavam bem antes da mensagem extremamente positiva de “We Can Work It Out”.

O sonho não acabou

Foto: MRossi/T4F (Divulgação)

Se transformar é uma das funções sociais da música, a apresentação de Paul McCartney em São Paulo nos mostrou que é nossa obrigação não deixar o sonho acabar. Em “In Spite of All the Danger”, ele propõe uma volta ao passado, trazendo uma das primeiras músicas da dupla Lennon e McCartney, gravada em 1958 pelo The Quarrymen, banda que deu origem aos Beatles. Em “Blackbird”, Paul anuncia a canção dedicada aos Direitos Humanos, escrita em um momento em que ele estava fortemente inspirado pelas notícias dos conflitos raciais nos EUA, representado na música com a imagem de um pássaro com as asas quebradas tentando voar.

Ao amigo e companheiro John Lennon, Paul também dedica “Here Today”, um momento de comoção profunda, afinal, cada um dos fãs se pergunta: o que seria de nós, da música, da própria humanidade se John ainda estivesse por aqui?

De sua carreira solo, Paul e banda apresentam “Queenie Eye” e “New”, ambas do décimo sexto álbum de estúdio do cantor, New, lançado em 2013. Do mais recente trabalho, “FourFiveSeconds” gerou polêmica em 2015, época de seu lançamento, pela parceria do britânico com os americanos Rihanna e Kanye West. Ao contrário de muitos, Paul adorou a façanha colaborativa, que contou com solos de guitarra e backing vocal anônimo do ex-beatle.

“I Wanna Be Your Man” veio nos lembrar da prática recorrente do músico de firmar grandes parcerias. Em 1963, a música composta por Paul e John foi presenteada aos Rolling Stones, por sugestão do empresário Andrew Oldham, num momento em que Mick Jagger e Keith Richards ainda não escreviam suas próprias letras.

Dos momentos especiais do espetáculo, que fez mesmo as pessoas pararem para se olhar nos olhos e levar a diversão a um nível quase que de autoconhecimento, “Let It Be” vai ficar na memória pelas luzes dos aparelhos celulares que iluminaram o Allianz Parque por completo, e “Hey Jude”, pela graciosa brincadeira de Paul no refrão da música: “Agora os manos; agora as minas; agora todos juntos”, incentivou Paul, enquanto todos se acabavam em um na na na na na na na sem fim.

Mas a explosão veio mesmo no final do show, literalmente falando, quando a banda apresentou efusivamente “Live and Let Die”. Marcada por constantes mudanças de ritmo ao longo de seus quase 4 minutos, a música do Wings, do álbum homônimo, de 1973, levou os fãs à loucura, um espetáculo de pirotecnia que fez esquentar ainda mais a temperatura do local, repercutindo em gritos, berros assobios e convulsões, um espetáculo imagético incrível, que cada um curtiu, sentiu e se emocionou a seu modo.

De volta ao palco para o encore, Paul McCartney não economiza bom humor e presenteia mais uma vez os fãs com mais canções emblemáticas dos Beatles: “Yesterday” (Help ,1965), “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (do álbum de 1967), a fantástica “Helter Skelter” e “Birthday”, ambas do Álbum Branco, de 1968.

E sem perder essa boa dose de alegria, de quem descobriu ao longo da vida a verdade sobre a essência humana, para além do dinheiro e da fama, McCartney despede-se dos fãs abusando daquele que é considerado pela crítica como um dentre os mais criativos álbuns dos Beatles, Abbey Road, de 1969, com o medley “Golden Slumbers”, “Carry That Weight” e “The End”.
Se a equação de Paul estiver correta, e é certo que está, no final, o amor que você recebe é o mesmo que você dá, e assim, vamos todos para casa com a alma lavada pelo magnetismo contagiante do ex-beatle, confiantes de que a sementinha do bem foi lançada bem fundo em nossos corações.

Set list
1. A Hard Day’s Night
2. Junior’s Farm
3. Can’t Buy Me Love
4. Jet
5. Drive my car
6. Let Me Roll It
7. I’ve Got a Feeling
8. My Valentine
9. Nineteen Hundred and Eighty-Five
10. Maybe I’m Amazed
11. We Can Work It Out
12. In Spite of All the Danger
13. Love Me Do
14. And I Love Her
15. Blackbird
16. Here Today
17. Queenie Eye
18. New
19. Lady Madonna
20. FourFiveSeconds
21. Eleanor Rigby
22. I Wanna Be Your Man
23. Being for the Benefit of Mr. Kite!
24. Something
25. A Day in the Life
26. Ob-La-Di, Ob-La-Da
27. Band on the Run
28. Back in the U.S.S.R.
29. Let It Be
30. Live and Let Die
31. Hey Jude
32. Yesterday
33. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
34. Helter Skelter
35. Birthday
36. Golden Slumbers
37. Carry That Weight
38. The End

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