No dia Mundial do Rock, Richie Kotzen e The Dead Daisies fazem show memorável em São Paulo

Por: Renata Penteado e Vagner Mastropaulo
The Dead Daisies – Foto: Renato Jacob

Foi com muita expectativa que os fãs de hard rock partiram para o Carioca Club, em Pinheiros, para testemunharem a sétima edição do Hard Legends Party, neste ano composto pela dupla de shows The Dead Daisies/Richie Kotzen, no dia Mundial do Rock. Porém, a turnê do guitarrista pelo país começara bem antes, com Kotzen tocando em Goiânia, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Campinas, Florianópolis e Curitiba, respectivamente dias 5, 7, 8, 9, 11 e 12 do mês. Já os integrantes do The Dead Daisies, recém-chegados do Japão, fizeram apenas um pocket show na Escola de Música e Tecnologia (EM&T) no Jabaquara, dois dias antes, com a promessa de uma curta apresentação acústica para 70 inscritos no evento, além de fotos e autógrafos para todos. Infelizmente o set foi reduzido devido ao esgotamento dos músicos e houve pouco tempo para a abertura de perguntas. Cada visitante recebeu um pôster da banda na saída e apenas alguns afortunados conseguiram os tão sonhados autógrafos.

Voltando ao show plugado, o cenário agora era outro: antes da apresentação, uma ação organizada no Facebook pela Dead Daisies Brasil deu oportunidade para vários fãs ganharem pôsteres, CDs e até participarem de um Meet And Greet. Na porta do Carioca Club, era possível ver os ganhadores se organizando para poderem entrar na casa e conhecer a banda, que postou nota de agradecimento em sua página do Facebook, mencionando, por exemplo, que seus membros haviam comido coxinha em um passeio pela cidade antes do show.

Faltavam dois minutos para as 21 horas, horário oficial de entrada do The Dead Daises, quando um mashup de War Pigs (Black Sabbath) e Whole Lotta Love (Led Zeppelin) começou a rolar na discotecagem, marcando a abertura do show do grupo no Carioca Club. Com membros oriundos de bandas do porte de Whitesnake, Thin Lizzy, Dio e Mötley Crue, o quinteto formado por John Corabi (vocais), Doug Aldrich (guitarra solo), David Lowy (guitarra base), Marco Mendoza (baixo) e Brian Tichy (bateria) fez um show direto e cativante, durante a hora que teve para esquentar a noite!

Divulgando Make Some Noise (2016) e Live & Louder, (2017) a apresentação começou com Long Way To Go e, de cara, já foi possível perceber que a banda viera disposta a divertir tanto os presentes quanto a si própria e que palhetas voariam durante o set, distribuídas para a platéia. Com um “São Paulo, let me see your hands”, John Corabi encorajou a participação da platéia em Mexico. Mais cadenciada, ela permitiu que Doug Aldrich não se restringisse em tão somente fazer sua parte nas guitarras, mas que arremessasse, vez ou outra, baquetas para Brian Tichy, que as segurava e seguia tocando. O baterista, aliás, é uma atração à parte, não apenas interessante de se ouvir tocar, mas de se assistir também, com malabarismos durante a apresentação, como tocar na caixa e pegar a baqueta no ar.

A música seguinte foi introduzida por John Corabi com um “Are you ready to rock? Are you ready to party? Are you ready to Make Some Noise?”. Corabi, aliás, parece uma versão Mini Me de Steven Tyler, especialmente no figurino e nos cabelos, um pouco mais baixo e rechonchudo, mas cantando muito bem, ainda que com pequenos contratempos que o forçaram a usar o microfone montado para David Lowy fazer os backing vocals na faixa-título do mais recente álbum de estúdio da banda. E as dificuldades técnicas prosseguiram quando Corabi disse que tinha uma música que funcionaria: Fortunate Son. E o vocalista tinha razão, pois ela, mais acelerada do que sua versão original, realmente funcionou bem ao vivo. O cover do Creedence foi seguido pelo solo de guitarra de Doug Aldrich, curto e bem encaixado, e a banda emendou Last Time I Saw The Sun, com seu poderoso riff inicial.

Join Together, cover do The Who, deu seqüência à apresentação, iniciada por Doug Aldrich e sua Talk Box, e contou com algo inédito, mesmo para os fãs de longa data, com anos de janela indo a shows na cidade: entrando no clima proposto pelo título, Marco Mendoza desceu do palco, cruzou o setor dos fotógrafos se encaminhando para a frente da pista, e foi literalmente para a galera, pedindo licença enquanto tocava, com todos abrindo passagem para o músico, que só retornou ao palco no final da música! Figuraça! Definitivamente, o integrante mais ‘rock n roll’ da banda!

A Talk Box de Aldrich seguiu firme em With You And I, com Corabi pedindo positividade e a atenção de todos para a letra, fazendo menção aos tempos difíceis em que vivemos. Terminada a música, era chegada a hora de o vocalista apresentar a banda ao público: David Lowy, discreto, porém eficiente durante todo o show, foi destacado como o único membro original da formação; Marco Mendoza, normalmente apresentado como “o homem da borda sul da banda”, devido às suas origens latinas, estando no hemisfério sul, foi citado agora como “o homem da borda norte”; Doug Aldrich se tornou o “homem com cabelos dourados”; Brian Tichy virou “Big Foot Tichy” e Mendoza, então, apresentou o vocalista, em portunhol, pedindo “aplausos fortíssimos para o Sr. John Corabi”.

Mainline acabou sendo a última canção autoral da banda, marcada por uma dança bastante engraçada por parte do Marco Mendoza, e as três últimas músicas do show foram covers: Helter Skelter (The Beatles), a faixa mais pesada da noite e tocada com uma rápida introdução de Nobody’s Fault But Mine (Led Zeppelin) em sua metade; Parasite (Kiss), precedida pelo agradecimento a todos os presentes ao show, na primeira vez da banda na América do Sul, e dedicada à Kiss Army Brazil que, segundo Corabi, ajudou a promover o show; e Midnight Moses (The Sensational Alex Harvey Band), com seu poderoso e marcante “Hey, hey hey, hey” inicial.

A sensação, ao término do show, foi de uma apresentação intensa e curta, com a banda certamente deixando a casa de shows com gosto de ‘quero mais’ na audiência. Se é possível citar algum ponto negativo, talvez a exagerada presença de covers. Ainda que não tenham incluído Highway Star (Deep Purple), Rockin’ In The Free World (Neil Young) e We’re An American Band (Grand Funk Railroad), tocadas nos shows mais longos da banda, foram cinco entre as onze canções do set, mas sem diminuir em nada a contagiante performance do quinteto.

Richie Kotzen – Foto: Renato Jacob

Após cerca de quarenta e cinco minutos de intervalo entre uma banda e outra – e um atraso de quinze minutos em relação ao horário inicialmente estipulado – surgem no palco Richie Kotzen (vocais, guitarra, violão e teclados) e sua banda, composta por Mike Bennett, na bateria e no cajón, e Dylan Wilson, no baixo. Com algumas passagens pela cidade, incluindo a gravação de um álbum ao vivo por aqui em setembro de 2007, o cantor e guitarrista se mostrou à vontade no palco, desta vez promovendo Salting Earth, lançado em abril deste ano. Sorrindo pouco, a atitude do músico confunde um pouco a impressão passada aos que o assistem pela primeira vez: timidez? Talvez; arrogância? Não; o certo é que sobram competência e segurança no palco. Os rumores, vindos de fãs que conversaram com o músico na porta do hotel onde ele se hospedou, davam conta de que Kotzen estava doente (uma gripe, quem sabe?), algo que certamente afeta a performance de qualquer um que suba a um palco. Porém, se você não sabia de nada e estava no show, provavelmente não notou diferença alguma durante a noite, pois o americano não se poupou, soltando a voz quando necessário.

Vestindo roupas todas pretas (camisa, calça jeans e botas, além de uma elegante echarpe), o músico já mandou ver logo de cara, tocando o solo de End Of Earth com a guitarra nas costas. A faixa inicial de Salting Earth foi seguida pela mais antiga de todo o set: Socialite (a única de Mother Head’s Family Reunion, de 1994), com direito a detalhes peculiares: Kotzen comandando a pista no tradicional embate do “ô, ô, ô” entre os lados direito e esquerdo da pista; o primeiro solo oficial do show, (descontando-se os de guitarra que compõem as músicas), ainda que curto, com Dylan Wilson caprichando no baixo e mostrando a que veio; e a retomada da canção, com Kotzen nos teclados para finalizá-la, produzindo efeitos que soavam como se estivesse tocando sua guitarra.

Meds marcou a retomada de Salting Earth (seriam cinco de suas faixas até o final da apresentação), com Kotzen permanecendo nos teclados. Go Faster, um dos pontos altos da noite, encaixou-se bem ainda no começo do set, animando a galera e acelerando o andamento do show, com o perdão do trocadilho. A música contou até com Kotzen improvisando uma dancinha desajeitada em seu solo, provando que, como dançarino, ele segue sendo um excelente guitarrista. Love Is Blind mostrou que, mesmo doente, o americano entregaria uma ótima performance vocal noite adentro, uma vez que cantou as linhas mais altas da música sem dificuldades.

A swingada Your Entertainer abriu espaço para o trio mostrar técnica e entrosamento e marcou o quinto álbum diferente contemplado no show, até então, gerando o seguinte questionamento: como montar um set list que agrade tanto aos fãs mais antigos quanto aos mais novos quando um artista dispõe de tantas opções no seu vasto catálogo? Saia misturando tudo, mas sem se esquecer de divulgar o material mais recente. E isto foi feito com duas novas, ambas com Kotzen voltando aos teclados: primeiro, My Rock, com o músico interagindo ‘bastante’ com o público, dentro de seus padrões, ao dizer que era chegada a hora de uma balada (se você ainda não viu o clipe da música, confira-o, pois é interessante ver o guitarrista que faz magia com os dedos trajar roupa semelhante à de um mágico, com cartola e tudo); depois com Cannon Ball, com Kotzen novamente lançando mão do recurso de efeitos nos teclados similares ao som da guitarra.

I Would foi a primeira de duas faixas no formato acústico, com a banda se posicionando mais à frente do palco: Kotzen no violão e voz; Mike Bennett cuidando do andamento da música no cajón (uma espécie de caixa percussiva, em formato retangular); e Dylan Wilson tocando algo que ora era manuseado como um contrabaixo, ora como um cello (ficou difícil de imaginar? Há uma filmagem no YouTube, feita no show em Florianópolis, que ajuda a entender algo que é mais fácil assistir do que tentar explicar). A canção, por alguns breves momentos, escancarou, pelo menos para quem escreve este texto, o quanto o timbre de voz de Kotzen se assemelha ao de outro excelente cantor/guitarrista, ainda que sem a mesma potência: Chris Cornell. Não se trata de cópia ou inspiração, mas apenas de uma assombrosa coincidência ao vivo. E o andamento cadenciado da música lembrou, e muito, a versão de Nothing Compares 2 U, também executada em formato acústico em dezembro do ano passado em São Paulo, pelo ex-Soundgarden, morto em maio. High, a outra canção acústica do set, foi outro ponto alto da noite, emocionadamente cantada pela maioria dos presentes no show. Ao olhar em volta na pista, não se via somente as mulheres, mas também os marmanjos a cantando a plenos pulmões.

Na seqüência, a parte mais irritante do show: Mike Bennett e o solo de cajón emendando ao solo de bateria. Evidentemente que se trata de um ótimo músico, pois, se não o fosse, não excursionaria com Richie Kotzen. Tecnicamente interessante, e ainda que o baterista tenha pedido a participação do público com palmas, o duplo solo chegou a inacreditáveis OITO minutos, muito tempo para quem já estava em pé na pista havia quase três horas, especialmente num mundo tomado por smartphones e curtos períodos de concentração (ao olhar em volta, impressionou o número de pessoas checando mensagens).

Após tempo suficiente para se recompor, Kotzen volta ao palco e a banda emenda músicas de três álbuns distintos: Fear (incrível como sua levada inicial de bateria na versão de estúdio lembra When The Levee Breaks, do Led Zeppelin. Ao vivo o efeito se dilui), Help Me (entrecortada com outro mini solo de baixo) e This Is The Life, com Kotzen voltando aos teclados. Então a banda sai do palco e todos sabiam o que esperar como fechamento do show: You Can’t Save Me, outra cantada em uníssono pela galera, extenuada (após quase três horas de música com os dois shows somados), mas empoderada ao poder extravasar berrando sua letra, liberando todos os “Fucks” cotidianamente reprimidos, na mesma linha de Killing In The Name, do Rage Against The Machine.

Alguns sentiram falta de Bad Situation e Doing What The Devil Says To Do, apenas uma questão de gosto. Além disso, como escolher as músicas para um show quando a carreira de um artista abrange mais de vinte álbuns solo? Alguma das favoritas vai rodar. E, por mais estranho que pareça, sabe outra coisa que faltou durante o show de um guitarrista que fez várias performances nos teclados? Ironicamente, mais guitarra … Mas até aí, se ele focasse mais em seu instrumento, em detrimento dos teclados, haveria gente pedindo maior variação no show. Não dá para agradar a todos … Por fim, há de se lamentar o fato de Richie Kotzen ter subido ao palco às 22:45 de um dia de semana em São Paulo, terminando seu show perto de 00:30, impossibilitando que muitos dos presentes recorressem ao metrô para ir embora. Para quem tem carro, maravilha. Mas e para quem não tem e mora longe? Justamente no Carioca Club, onde os concertos de rock e metal costumam começar cedo. Problema este que seria facilmente resolvido se ambos os shows tivessem começando uma hora mais cedo.

Set List – The Dead Daisies
01) Long Way To Go
02) Mexico
03) Make Some Noise
04) Fortunate Son (Creedence Clearwater Revival Cover)
05) Mini Guitar Solo (Doug Aldrich)
06) Last Time I Saw The Sun
07) Join Together (The Who Cover)
08) With You And I
09) Mainline
10) Helter Skelter (The Beatles Cover)
11) Parasite (Kiss Cover)
12) Midnight Moses (The Sensational Alex Harvey Band Cover)

Set List – Richie Kotzen
01) End Of Earth
02) Socialite
03) Meds
04) Go Faster
05) Love Is Blind
06) Your Entertainer
07) My Rock
08) Cannon Ball
Acoustic Set
09) I Would
10) High
Encore
11) Cajón Solo
12) Drum Solo
13) Fear
14) Help Me
15) This Is The Life
Encore 2
16) You Can’t Save Me

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