Maximus Festival dobra o número de público com alguns dos gigantes do rock

Por: Daniela Baroni
Foto: Camila Cara

Por volta do meio dia, uma multidão trajada de preto circulava a região de Interlagos com botas até as canelas, bandanas e bonés nas cabeça e talvez uma maquiagem sinistra nos olhos e ninguém ali parecia se importar com o calor que fazia. Afinal, o Maximus Festival estava para começar.

Realizando sua segunda edição apenas oito meses depois da primeira, o Maximus Festival já está mais do que estabelecido na lista dos grandes festivais de música do Brasil e concentrou 40 mil fãs de rock (quase o dobro da edição de 2016) no Autódromo de Interlagos no último sábado (13/05). Embora o festival seja exclusivamente voltado para o rock, não há dúvidas de que o lineup de sábado oferecia uma grande variedade de estilos que ia do hardcore californiano do Pennywise, passando pelo thrash metal do Slayer, até o nu metal do headliner da noite, o Linkin Park; variedade o suficiente para contestar qualquer um que se atreva a dizer que bandas de rock são todas iguais.

E já que estamos falando de contestação, vale dizer que esse foi o tema principal dessa edição do Maximus, mesmo que por acidente. É claro que a temática visual, desde os cenários de palcos às decorações e atrações do evento, é inspirada na franquia Mad Max, mas as mensagens vindas dos três palcos dispostos no festival eram, em sua maioria, de cunho político. Mensagens anti-Trump, anti-Temer, antirracismo e anti-misoginia eram gritadas nos microfones e recebidas de forma calorosa pelo público que entendia muito bem que, em tempos complicados como os nossos, o melhor mesmo é se unir e protestar. Não à toa, com algumas músicas já tocadas no show do Hatebreed, o vocalista Jamey Jasta achou importante esclarecer as regras para um bom dia de festival: “Se você ver alguém cair, ajude a pessoa a se levantar. Se você ver uma briga, separe. Se você ver uma garota ser assediada, ajude-a”. Recado dado.

Hatebreed | Foto: Camila Cara

Os caras do Hatebreed subiram no palco Rockatansky pouco antes das 14h e os fãs desprevenidos que ainda chegavam corriam em direção ao palco enquanto cantavam, ofegantes, “To the Threshold”, que deu início ao show. Em seguida, os fãs mostraram a que vieram ao cantarem em uníssono “Destroy Everything”, o que deixou Jasta completamente estupefato e feliz; “É por isso que eu amo o Brasil!”. A banda de hardcore New York procurou incluir o máximo de sucessos na setlist, como “Looking Down the Barrel of today”, “Empty Promises” e, ao elogiar o lineup do evento, dedica “As die Hard as they Come” aos colegas do Slayer.

Enquanto os palcos Rockatansky e Maximus alternavam um show seguido de outro, o Thunder Dome, palco mais longínquo do evento, seguia seu próprio horário e se dedicou unicamente ao hardcore melódico, o que foi um grande presente para os fãs do estilo que não foram contemplados na última edição do festival. Dentre as atrações do palco estavam os capixabas do Dead Fish, os canadenses do The Flatliners (aguardados desde 2013 quando o Wros Festival foi cancelado) e os californianos do Pennywise, responsáveis por provocar a formação de algumas das maiores rodas de bate-cabeça do evento com sucessos como “Fuck Authority”, “Alien” e a conhecida versão de “Stand by Me” (Ben E. King). Com uma performance surpreendentemente calorosa do vocal Jim Lindberg, o show do Pennywise também contou com um cover de “Do What you Want” do Bad Religion, a pedido da plateia, um cover animado de “Blitzkrieg Bop” dos Ramones e a música de encerramento de praxe “Bro Hymn”.

Pennywise | Foto: Camila Cara

Dentre as polêmicas relacionadas ao festival, que incluíram promoções abruptas de preço indicando uma possível dificuldade na venda de ingressos, houve também o fato de que a primeira tabela de horário de shows foi descartada um dia antes do evento. O novo lineup propunha aumentar o tempo de show de algumas bandas e possibilitar que todos pudessem ver o Five Finger Death Punch; contudo, acabou colocando o Rise Against no mesmo horário do Slayer e os presentes precisaram tomar uma decisão.

O Rise Against ficou responsável por encerrar a sequência de shows do palco Thunder Dome no fim da tarde e fez um show um pouco maior que os das bandas anteriores. Passando por vários momentos da carreira, a banda de Chicago incluiu no setlist sons clássicos como “Give it All”, “Re-Education (Through Labor)” e “Prayer of the Refugee”, bem como algumas músicas recentes e a inédita “The Violence”, que estará no álbum “Wolves”, previsto para ser lançado no mês que vem. Para o encore, Tim McIlrath, já sem muita voz, entrou no palco com um violão para tocar “Hero of War” e “Swing Life Away” e, com a banda de volta, encerrou com “Audience of One” e “Savior”.

Enquanto isso, nos palcos principais, algum tempo depois de os suecos do Ghost impressionarem o público com sua teatralidade e som maligno, porém suave e depois de o veterano Rob Zombie mostrar que seu metal industrial mantém a força que sempre teve, foi a vez do Slayer tirar a galera do chão. Tocando clássicos como “Raining Blood” e “Angel of Death”, a banda de thrash metal fez o espaço do palco Maximus estremecer e as rodas de bate-cabeça ficaram tão grandes e violentas que as pessoas que estava lá aguardando o Linkin Park precisaram sair correndo ou se defender, tamanha era a destruição causada pelo som da banda. E claro que nada disso é novidade quando o assunto é Slayer.

Prophets Of Rage | Foto: Camila Cara

O Prophets of Rage subiu no palco Rockatansky por volta das 19h30 e, por ser a única banda do horário, a concentração de público ficava maior a cada minuto de show que passava. Dando continuidade ao legado do Rage Against the Machine, o Prophets of Rage conta também com dois membros do grupo de rap Public Enemy, DJ Lord e MC Chuck D, e o rapper Boreal do Cypress Hill. No maior estilo noventista de misturar rap, metal e batidas funk, o show incluiu diversos sucessos do Rage Against the Machine, como “Testify” e “Bulls on Parade”, “How Could I just Kill a Man?” do Cypress Hill e “Prophets of Rage” e “Fight the Power” do Public Enemy, sendo esta última com direito a Tom Morello virando a guitarra para revelar uma plaquinha com as palavras “Fora Temer”. O show também contou com covers de “Seven Nation Army” do White Stripes e “Kick Out the Jams” do MC5, com participação especial de Tim McIlrath e Zach Blair do Rise Against; e “Killing in the Name of” foi a melhor e mais óbvia escolha para encerrar o show, já que todos a esperavam e, ainda assim, nada os impediu de cantarem junto com todas as forças enquanto balançavam a cabeça no ritmo da guitarra de Morello.

Linkin Park | Foto: Camila Cara

Para terminar o sábado, subiu no palco Maximus a banda que atraiu mais fãs e causou mais comoção do festival: o Linkin Park. Estranhamente, o headliner da noite foi também a banda que mais destoou do lineup do evento, já que recentemente vem flertando com sons mais pop e eletrônicos, fugindo um pouco do nu metal. Não que os sons novos sejam de má qualidade; “Talking to myself” ou “Heavy” são sons interessantes, mas não conseguiam do público a resposta positiva que músicas como “Faint” ou “One Step Closer” certamente provocaram. Como de costume, Chester Bennington não deixou a desejar com seu poderoso alcance vocal e sua simpatia que, embora não muito verbal, transparecia nos gestos de carinho que fazia para os fãs. Em certo momento, Mike Shinoda disse que os fãs mais loucos de Linkin Park estão no Brasil, ao que Bennington respondeu num grito “Brazil is the best!”.
Incluindo também no setlist o fenômeno “In the End”, que se tornou ainda mais fenômeno quando teve toda a parte de rap cantada somente pela plateia, e uma versão piano de “Crawling”, a banda encerrou com “Bleed it Out” um show que foi mais voltado para fãs devotos do que para apreciadores ocasionais.

O Maximus Festival 2017 foi evidentemente um sucesso em público e atrações e parece muito provável que que ele cresça cada vez mais e atraia ainda mais gente de preto para os lados de Interlagos, que com certeza precisará ceder mais espaço para o evento no futuro.


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