por: Maila-Kaarina
versão em protuguês: Ana Leary
O guitarrista finlandês Timo Tokki dispensa apresentações. Atualmente à frente da banda Revolution Renaissance, Timo está de malas prontas para uma tour por toda a América Latina e Brasil, onde realizará uma série de seminários e pocket shows. Num bate-papo descontraído pelo Skype, tive o prazer de conversar com ele por pouco mais de uma hora sobre os mais diversos assuntos; espiritualidade, Stratovarius, Revolution Renaissance, sua autobiografia que está prestes a ser publicada em diversos idiomas e etc.
Maila: Revolution Renaissance lançou o novo álbum este ano e estamos no aguardo de uma turnê. Por que ela não aconteceu ainda?
Timo: Esta é uma boa pergunta. De fato, nossos agentes vêm tentado fazê-la acontecer, mas, por alguma razão, tem sido muito difícil. Eles tentaram nos agendar uma tour na América do Sul, mas não deu certo. Mas, de qualquer forma, muitas coisas aconteceram este ano e tivemos uma mudança no line up. Mudamos o baixista e o tecladista, então os planos são de trabalhar no novo material e talvez, em um novo álbum.
Maila: Sim, eu fiquei sabendo sobre as mudanças no line up. Mas vocês já têm um novo baixista e um novo tecladista na banda?
Timo: Um novo baixista, sim.
Maila: E quem é ele?
Timo: Bom, eu ainda não posso te falar quem ele é, mas posso dizer que é uma pessoa bem conhecida no cenário musical. De qualquer forma, muito em breve todos saberão quem é. Mas se você estiver realmente curiosa, você poderia tentar ligar para o nosso agente e perguntar, talvez ele te responda ! =)
Maila: Não, eu prefiro ser surpreendida! De fato, realmente gosto da sensação de estar curiosa sobre algo e depois ser surpreendida. É excitante.
Timo: Sim. E eu acho que você ficará muito surpresa porque todo mundo conhece ele.
Maila: Ainda sobre o line up, você poderia nos dizer como é trabalhar com músicos de diferentes nacionalidades como acontece agora no RR?
Timo: Bom, eu pessoalmente acredito que não há diferenças devido à nacionalidade dos músicos. Quem trabalha na área geralmente sabe lidar com isso muito bem e, para mim, não importa de que país essa pessoa venha.
Maila: Ok, e você possui dois brasileiros na banda. Como tem sido trabalhar com eles? (Pergunta enviada por Daniel White, baixista da banda carioca Magna Sina)
Timo: Pessoalmente, eu não vejo Gus e Bruno como brasileiros típicos...
Maila: Por que não? O que faz deles tão diferentes dos demais brasileiros?
Timo: Bem, o pós-barba deles é uma porcaria! (risos) Brincadeira. Eles são bem mais tranquilos do que a maioria dos brasileiros. Com exceção do Bruno, que é louco, mas numa boa maneira. Ele também é um gênio. Eu realmente não esperava alguém com essa capacidade quando ele entrou na banda. Foi uma grande e ótima surpresa para mim.
Maila: E como isto aconteceu? Como você acabou escolhendo dois brasileiros para entrar na banda?
Timo: Bem, eu coloquei um anúncio procurando por músicos e recebi quase duas mil respostas. Quando eu vi tudo isso, os meus primeiros pensamentos foram: Deus, o que eu faço agora? Era realmente muito difícil escutar todo material enviado. Após analisar tudo, eu selecionei em torno de uns cem e eles estavam lá. Ao procurar um vocalista, o membro mais importante em uma banda, eu queria alguém com uma voz mais agressiva, alguém como o Kiske e o Gus tem essa característica na voz, e, ao mesmo tempo, ele é capaz de fazer vocais mais limpos, então eu o escolhi.
Você sabe, eu sou muito detalhista quanto a vocais. Não de uma forma autoritária, mas de uma forma mais emotiva. Eu acredito que deve existir muita emoção no modo que um vocalista canta uma música. Tem que haver essa troca de emoções quando uma música é interpretada e isto é algo que realmente importa para mim.
Maila: Você deixou o Stratovarius e decidiu recomeçar. Uma nova banda com pessoas completamente diferentes, isto deve ter sido uma grande mudança na sua vida. Que tipo de insight você teve para tomar essa decisão?
Timo: Não foi exatamente um insight para mim e eu não sinto que tenha mudado muita coisa em minha vida. Eu sou realmente o mesmo cara, nada mudou em mim. Mas era uma banda com muitos problemas e eu tinha que sair dali. Isto foi o que aconteceu. Pensei que não era o lugar para estar e não acho que foi uma grande mudança na minha vida, deixei algo que não era bom para mim e segui em frente fazendo a minha música com outras pessoas. Conheço a forma que a imprensa e outras pessoas dizem as coisas, mas você não deve acreditar em tudo que falam como verdade ao ler.
Maila: Com certeza. A imprensa gosta de criar uma imagem errônea de pessoas famosas. Essas coisas são geralmente alteradas e os sentimentos reais envolvidos não importam para eles. Eles continuam com o tipo de pensamento que é melhor dizer algo ruim do que algo bom sobre uma pessoa famosa.
Timo: Bem, algumas pessoas têm a idéia errada sobre mim. Eu não sou o mesmo cara que a imprensa mostra. As pessoas geralmente projetam algo nas pessoas famosas. Elas criam uma imagem não condizente com a realidade daquela pessoa e a vendem. Eu sou um homem que fala sobre os próprios sentimentos, gosto de trocar essas experiências e, é claro, às vezes, me irrito. Mas acredito que se você falar com o seu coração, isto é o que importa, mas sei que as pessoas dizem que sou um imbecil.
Maila: É tudo uma questão de analisar o que você lê. Tenho lido coisas ditas por outros, mas nunca li nada estúpido realmente dito por você. Eu quero dizer, eles dizem que você fez isso, mas suas palavras não estão lá. Toda vez que eu leio algo que você escreveu, como as mensagens para os fãs no seu site quando deixou o Stratovarius, sempre penso nessas palavras como vindas de uma pessoa muito sensível, não de um imbecil qualquer. O mesmo acontece quando ouvimos as suas músicas e prestamos atenção nelas. É claro que essas letras e melodias vêm de uma pessoa sensível. É óbvio!
Timo: Bem, penso que isso acontece quando escutam as minhas músicas, como “Celestial Dream”, por exemplo, poderia ter sido escrita por um imbecil? Mas você sabe, sou uma pessoa bastante espiritualizada e acredito que quando você anda pelo caminho da espiritualidade terá que lutar contra o mal pelo resto de sua vida. Às vezes, sinto como iniciando uma luta, dependendo da situação, mas, na maioria das vezes, prefiro deixar de lado. Eu sei que sempre muitas coisas acontecem e irei aprender com elas; temos que tentar permanecer calmos quando todos ao nosso redor enlouquecem. Às vezes, a situação fica realmente injusta e eu perco o controle, mas tento ser gentil. Você tem que ser gentil, você tem que estabelecer limites.
Maila: Você está certo. Bom, falando agora um pouco sobre os seus projetos, muito em breve você estará iniciando uma série de workshops na América do Sul, mas eles serão bem diferentes das oficinas de guitarra as quais geralmente acontecem; serão mais como seminários. Você poderia nos falar um pouco mais sobre este projeto?
Timo: Começaremos em novembro. Em três semanas estaremos na Colômbia. Já tenho agendados 8 ou 9 seminários na América do Sul até o momento e lá pelo dia 20 de novembro, chego ao Brasil onde temos mais de 20 datas acertadas!
A forma como o projeto funciona é um pouco complicada de se explicar, mas eu pretendo fazer um seminário realmente voltado para qualquer tipo de músico ou profissional relacionado à música, não apenas para guitarristas. O projeto será dividido em diferentes estágios e eu não pretendo que aconteça como um workshop regular, especialmente porque não acredito que música seja algo que qualquer pessoa possa ensinar. Ela é um dom natural que existe dentro das pessoas, mas, às vezes, elas não sabem que está lá.
Os seminários funcionarão como uma troca de experiências. Eu vou tocar também, mas não será como os demais workshops em que o objetivo é tocar o mais rápido possível. Serão longas seções com três horas de duração. Mas, é claro, haverá uma banda local também e eu irei tocar algumas de minhas músicas com ela.
Maila: Podemos considerar isso, então, como um novo projeto de Timo Tolkki?
Timo: Bom, tive essa idéia há dois anos e recebi um email do Brasil perguntando se eu estaria interessado em fazer workshops. Eu disse que não porque eles são muito entediantes, mas disse que aceitaria realizar um seminário onde músicos pudessem trocar experiências, com diferentes explicações e tópicos, dar dicas sobre a indústria musical, pois há sempre seções de perguntas e respostas. Eu só espero que não me perguntem coisas como: a marca de meu encordoamento. =)
Maila: Vamos falar sobre o atual mercado da música. Qual a sua opinião sobre ele? De que modo a forma como um músico trabalha deve ser diferente hoje em dia? (Pergunta enviada pela MS Produções)
Timo: Eu poderia dizer que você deve ser mais criativo e realmente prestar atenção ao que acontece, pois a indústria da música está realmente em transformação. Não levará muitos anos para não termos mais o material (como o CD). Tudo será pela rede. Em Helsinki, onde moro atualmente, existem apenas 10 lojas de CDS. Estamos vivendo a geração do MP3 e é o que as pessoas mais fazem. Não tenho problemas quanto a isso, uma vez que conheço pessoas as quais reclamam da qualidade, embora eu realmente não me incomode ou veja as coisas dessa forma.
Maila: E sobre os downloads? Será impossível controlar...
Timo: Bem, é impossível controlar qualquer coisa. Eu realmente não sou contra os downloads, de certa forma, e também não acredito que a maioria das pessoas que gostam do seu trabalho eventualmente o compram. Especialmente porque antes dos MP3 era muito caro comprar CDS. Mas se eu compus uma música, ela é minha. Se alguém quiser fazer o download, eu poderei concordar ou não dependendo de sua atitude, pois acredito ser errado você fazer o download apenas por considerar que tem esse direito, deve haver algo mais. Você deve ter de fato uma razão, um sentimento para fazer isso, não apenas porque é gratuito. Você não vai ao cinema de graça, por exemplo...
Maila: Fiquei sabendo que você escreveu uma autobiografia. Considero essa uma atitude muito corajosa. Quando ela será publicada?
Timo: Bom, está pronta! Eu escrevi em inglês e neste momento ela está sendo traduzida para diversos idiomas. Espero que seja lançada no próximo mês, mas, como as traduções levam tempo, não sei dizer quando estará a venda.
Maila: E por que você tomou esta decisão?
Timo: Bem, é uma história estranha. Houve quatro pessoas tentando escrevê-la antes de mim, mas toda hora acontecia alguma coisa e não dava certo, até resolver, finalmente, eu mesmo escrevê-la. Você sabe, eu sou um artista e tudo o que faço é autoexpressão. Tudo em minha vida é muito diferente. Sou realmente muito abençoado por ter o dom da música e por poder usá-lo. Agora estou mais velho, sinto-me na obrigação de dividir essas experiências. Como disse anteriormente, sou um homem muito espiritualizado e filosófico, acredito num caminho para mim. Quando acordo pela manhã, sei que estou exatamente onde deveria estar. Acredito haver sempre uma razão para tudo, para você estar lá e fazer o que deve.
Maila: Mas você segue alguma religião ou esta espiritualidade é apenas uma crença, algo que você tem dentro de si?
Timo: Religião? Bem, penso que qualquer técnica ou dogma escrito como introdução a uma crença não possui nenhuma espiritualidade. Então, eu não acredito em religião, mas no melhor para mim. Estudei várias religiões e elas são basicamente a mesma coisa, há muita energia ruim envolvida com regras e as pessoas gostam de se opor às coisas. Ao invés disso, prefiro apoiar algo. Se você se opõe, é geralmente algo ruim. Eu realmente acredito que tudo o que você faz volta para você.
Maila: Podemos sentir muito de sua espiritualidade ao ouvir seus CDS, prestando atenção nas letras e eu diria especialmente com o RR e Age of Aquarius. Para mim este trabalho mostra muita maturidade, profundidade e beleza.
Timo: Sim, realmente há beleza ali. Há uma beleza sofrida naquele cd. Tenho muito orgulho dele, pois foi muito difícil produzí-lo. Não foi fácil gravá-lo e, para mim, Age of Aquarius está entre os três melhores álbuns que já fiz. Eu não tenho os meus próprios álbuns em casa, geralmente dou aos fãs ou às pessoas que gostam, mas este álbum é bonito e eu o tenho em casa. Vejo nele uma continuação de nosso álbum anterior, é bem sombrio mas há esperança.
Maila: Você poderia nos contar sobre algumas dessas dificuldades na gravação?
Timo: Bem, para o Gus, por exemplo, foi uma experiência totalmente nova. Ele já foi membro de diversas bandas como vocalista e aqui nós ultrapassamos isso, especialmente nas letras, pois muitas vezes elas falam sobre coisas muito intimas. No início ele não entendia como iria gravar os vocais da forma como eu queria. Eu sou muito conectado ao vocalista e este tipo de comunicação é como se fosse uma troca de energias. Os vocalistas geralmente gravam sozinhos atrás do vidro, eu geralmente fico com eles dentro da sala numa distância de 2 metros para que eles possam gravar me vendo o tempo todo. É bem comum um vocalista perguntar sobre o que você quer e como você quer que ele cante, e Gus me fez essas perguntas várias vezes. Minha resposta era: o meu problema é não saber ainda o que quero. É seu trabalho me dar algo para que vejamos se funciona ou não, como me sinto com isso. Levou bastante tempo porque ele teve que me mostrar todas as suas emoções. Mas é um ótimo processo, num primeiro momento o cara grita e pergunta: O que você quer? Num segundo momento, ele está chorando de emoção, sentindo o que está acontecendo. Tudo isso aconteceu durante o processo de gravação.
Maila: Então você estará na América do Sul em breve para os seminários, mas há algum show acertado? Ou somente pocket shows durante os seminários?
Timo: Nós provavelmente faremos alguns shows durante a minha estada no Brasil. Pelo menos uns dois. Bruno e Gus estarão lá e espero que o novo baixista também esteja. Decidimos fazer uns dois shows, mas ainda não sei as datas. A única data confirmada é 21 de novembro em São Paulo.
Maila: Isso é ótimo e estou certa de que todos estarão ansiosos por mais datas para vê-los ao vivo! Timo, eu realmente gostaria de agradecê-lo por essa conversa maravilhosa, pois falar com você foi muito bom. Obrigada por ter aceitado falar comigo pelo Skype.
Timo: Bem, eu realmente não gosto de entrevistas por email, elas são muito frias e você não tem a real sensação do que está acontecendo. As melhores entrevistas são geralmente aquelas realizadas face a face e faladas. Estou acostumado a ter longas entrevistas porque nós sempre acabamos falando bastante. É importante sentir esta conexão, esta troca.