Antes
de embarcar em mais uma parte da turnê internacional “Aurora
Consurgens” do Angra, o guitarrista Kiko Loureiro concedeu
uma entrevista super exclusiva à repórter Adriana
Camargo do Portal Universo do Rock. Ele falou sobre a carreira
solo, o Angra e muito mais. Confira abaixo na íntegra:
Universo
do Rock: Fale um pouco como foi a primeira parte da turnê
internacional do Angra.
Kiko: Na realidade a primeira parte a gente fez
em outubro do ano passado quando fomos para o “Loud Park”,
um festival no Japão. Nós tocamos antes do Megadeth
que era a banda principal do festival. Foi muito boa a super posição
que ocupamos no festival. Além do Megadeth teve também
o Anthrax e mais um monte de bandas. No outro dia tinha o Slayer
e o Dio como bandas principais. Aí foi o primeiro show
internacional dessa turnê do “Aurora Consurgens”.
Antes a gente tinha feito a viagem de promoção.
Eu e o Edu (Falaschi) fomos para a Europa só para divulgar
e fazer entrevistas.
Em fevereiro deste ano a gente foi para o Japão tocar com
o Blind Guardian para fazer oito shows. Essa foi a maior turnê
que fizemos no Japão, porque geralmente eram cinco ou seis
shows. Dessa vez a gente fez um show em Sapporo a mais, que é
uma cidade do Norte do Japão e os dois shows de Tokyo ficaram
esgotados e fizemos uma terceira noite. Então foram três
noites em Tokyo em três lugares diferentes. Foi muito bom.
UR: E na Europa?
Kiko: Do Japão fomos direto para a Europa
e fizemos um esquema de “tour bus” com shows na França,
Espanha, Lisboa, Itália, com um showzinho na Itália
e outro na Alemanha bem pequenos para dar tempo de irmos tocar
em Moscou que a gente nunca tinha ido e que o show tinha que cair
num sábado. A apresentação em Viena até
que foi interessante porque foi junto com o UFO. Foi legal porque
tinham muitos fãs do Angra misturados na platéia.
Foi interessante. Eu até conheci o músico Vinnie
Moore que estava lá e eu era muito fã dele quando
era moleque. Aí depois do show na Alemanha fomos para Moscou,
um local que eu adorei conhecer.
UR: Eles conheciam o trabalho do Angra
em Moscou?
Kiko: Sim. Até nos falaram que teve uma
época que o Angra foi uma “super moda” lá
entre os fãs de metal. Não sei o que significa essa
“super moda”, mas o Angra estava em voga como uma
banda superbem cotada. A Rússia e a Tunísia são
países que funcionam um pouco como o Brasil, pois tem muitos
CD´s e outras coisas piratas. Nesses lugares não
dá para você medir muito bem pela vendagem, porque
os caras não usavam camisetas da banda e os CDs não
chegam. Claro que tem CD´s vendidos por lá, mas não
dá para sentir isso.
Quando eu fui para a Tunísia os caras me falaram que eram
fãs do Angra desde o “Angels Cry”. O cara deve
ter escutado pela internet, ou por um amigo que levou um CD. Você
tem um grupinho de pessoas que espalham a coisa, mas nada muito
significante. Às vezes pode ser aquela banda cult dos fãs
de heavy metal. Eu imagino que seja mais que isso. Então
em Moscou já havia tido essa época com o Angra.
UR: O Angra tocou em estádio lá
em Moscou?
Kiko: Tocamos em uma casa de show. Estádio
na Europa não existe. Lá é outro esquema.
Só os festivais de Verão é que acontecem
em lugares abertos, que tem 10 ou 15 bandas por dia aí
sim vão umas 20 mil pessoas. Um show do Iron Maiden é
para 15 a 20 mil pessoas como quando eles tocaram na Espanha,
por exemplo. Daí você tem uma base de como é
difícil ter público lá na Europa. Os ingressos
são mais caros também. É outro esquema. Os
shows não são que nem no Brasil que tem muita gente.
Os gringos vêm pra cá e ficam loucos!
UR: O Aerosmith tocou aqui no mês
passado para 60 mil pessoas...
Kiko: Na Europa para você ter 60 mil pessoas
num show você tem que ser o U2 ou alguma banda muito forte.
Banda de heavy metal você não vai ter, nem o Iron
Maiden que consegue ter umas 20 mil pessoas no show. Um festival
também tem cerca de 15 ou 20 mil de público. É
diferente lá. Fazer show para cinco ou seis mil pessoas
como o que a gente faz num Credicard Hall ou Via Funchal não
acontece na Europa e nem no Japão. Eles preferem fazer
três noites em lugares menores. É outro sistema também.
É mais garantido porque se tem público o cara abre
mais um dia de show. Ele pega um lugar grande e um lugar mediano.
Acho que por isso que o risco é menor. Os caras trabalham
mais no lado seguro, o ingresso é mais caro no caso do
Japão e na Europa. O ingresso no Brasil também é
muito caro. Não dos shows nacionais do Angra, mas show
internacional é muito caro. Acho que é por causa
do lance da carteirinha de estudante que paga meia e os preços
dos ingressos vão lá pra cima.
UR: Como foi dividir os shows com o Blind
Guardian no Japão?
Kiko: Foi legal porque é uma banda super
profissional. Tem uma equipe boa também. Da equipe deles
eu já conhecia o Peter que já trabalhou com a gente,
que era roadie do Andreas. Ele fez turnê com a gente e já
o conhecíamos quando ele trabalhou com o Stratovarius,
pois ele era roadie do Timo Tolkki.
Então, os caras são super gentis, gente fina, tranqüilos.
Foi legal porque a gente ficou 15 dias viajando juntos, no hotel,
nas saídas, no lobby. As saídas dos shows tinham
horários diferentes, mas quando eram viagens sempre tinha
microônibus das duas bandas juntas e no avião também.
Então é legal que você bate-papo com outras
pessoas de uma banda experiente também.
UR:
Quando o Blind Guardian se apresentou aqui recentemente alguns
integrantes do Angra tocaram com eles...
Kiko: Eu não estava no Brasil, mas o Edu
e o Felipe participaram do show. Criamos um laço de amizade
e respeito entre as duas bandas. É legal porque o Hansi
Kürch cantou numa música do “Temple of Shadows”
e no terceiro show de Tokyo fizemos uma surpresa e ele cantou
com a gente lá. É engraçado porque você
conversa com o cara e não faz idéia do que ele conhece
do Angra. Ele veio e falou pra gente: “Sabe no Holy Land,
na segunda música na terceira parte eu acho que não
sei o quê. Já no Fireworks em outra música
eu gosto muito daquele riff. No Rebirth vocês foram mais
para cá”. O cara sabia super bem assim. Do Blind
Guardian eu conheço um pouco, mas não poderia falar
do riff de tal disco e coisa e tal. Isso foi legal porque ele
falou que quando eles gravam trabalham com o Charlie Bauerfeind
que foi o produtor dos dois primeiros CD´s do Angra (Angels
Cry e Holy Land) eles sempre põem o Angra como referência
para ouvir. Assim como a gente também escuta Blind Guardian
para ver o que os caras estão fazendo. Ouvimos também
o novo do Helloween para saber qual a tendência, o som,
o timbre, para saber o que eles estão fazendo. Você
ouve um pouco pelo lado técnico e não só
como fã. É bom isso.
UR: Como surgiu o convite para você
tocar na Tunísia na África? E como foi lá?
Kiko: Foi um cara que conhecia o Angra e me conhecia
como guitarrista. E ele queria fazer uma coisa de guitarra lá
na Tunísia que ia ter um festival de jazz. Dentro desse
festival tinham vários eventos rolando. Na parte principal
tinham os grandes artistas de jazz lá. Tinham outros teatros
rolando apresentações de outros artistas de jazz
menores e em um desses teatros ia ter uma noite do rock dentro
desse conglomerado todo de eventos que estavam acontecendo nesse
período. E aí eu fiz os workshops lá na França
porque tenho uma relação forte com esse país,
o Angra também tem. E o lance de eu ter ganhado como o
primeiro guitarrista pela revista Burn também ajudou bastante
porque ele conseguiu que a embaixada brasileira conseguisse todo
o esquema e a verba para eu ir para a Tunísia. Eu fui pelo
Ministério das Relações Exteriores.
UR: Tudo custeado pelo Brasil?
Kiko: Pelo Governo brasileiro. E fiquei lá
com o pessoal da embaixada. Pelo fato de levar um brasileiro que
foi eleito como o melhor guitarrista do mundo para a Tunísia
para mostrar a música do Brasil dentro de uma série
de eventos que estavam acontecendo naquele país.
UR: O que você fez por lá?
Kiko: Eu fiz workshops e toquei com os caras
de lá também. Uma noite era tipo uma jam com os
caras, as bandas e com os guitarristas que os caras gostam de
lá. Era um lance mais roqueiro. E aí teve também
o workshop. No outro dia rolou uma jam que estava dentro da programação
do festival com os músicos de jazz da Tunísia.
UR: Só foi você então?
Kiko: Sim, só fui eu. Aí eu tive
que tocar com os caras de lá. Mas foi legal, pois a idéia
era fazer essa interação.
UR: Vocês tocaram músicas
do seu trabalho próprio?
Kiko: Não, aí no caso foi jam.
Nós tocamos uns standards do jazz e uns rocks. Os caras
tocaram antes coisas deles e depois eu entrei e participei da
jam. Foi uma coisa mais ou menos assim. No workshop eu toquei
as minhas músicas.
UR:
O que representou para você a premiação da
Revista Burn em que você foi escolhido como o melhor guitarrista
do mundo?
Kiko: Achei legal. Foi um susto, porque antes
eles marcaram uma entrevista comigo que não estava nos
planos quando eu estava no meio da turnê do Angra no Japão.
Eles me avisaram que eu tinha que fazer uma entrevista com a Burn
de meia hora e eu nem sabia. Eu já tinha sido entrevistado
por eles, já tinha feito um monte de coisas para a Burn,
então eu pensei: “por quê será?”.
A entrevista era mais ou menos assim: você ganhou o primeiro
lugar, o que você sente? Assine aqui para sair uma foto
assinada pelo vencedor com agradecimento. Foi aí que eu
levei mais um susto.
Mas foi engraçado porque o Felipe (Andreoli) tinha sofrido
um acidente e chegou lá naquelas condições
e tava um clima meio triste e ao mesmo tempo tinha a minha entrevista
com a Burn. Eu pensava: que droga que o Felipe vai ter que tocar
sentado no show, mas ao mesmo tempo estava rolando esse outro
negócio da premiação. Tanto que eu nem falei
para os caras da banda na hora. Não tinha clima. Eu falei
depois e tal. Porque era complicado ficar vibrando um negócio
e o cara ao mesmo tempo no maior clima ruim. A gente não
sabia como ia ficar a boca dele e foi um susto quando a mulher
me perguntou “Como você se sente sendo o primeiro?”
Eu já tinha sido o quarto colocado em outro ano. É
uma coisa muito significativa, porque o japonês adora guitarra
e sempre são mais ou menos os mesmos caras: Ritchie Blackmore,
Y. Malmsteen, Paul Gilbert, Steve Vai, entre outros.
Aí ser eleito assim na frente de todos esses caras foi
muito bom. Mas não é um lance de tocar mais ou menos.
Eu encaro como aquela pesquisa “Top of Mind” que fala
“qual o 1º nome que vem na sua cabeça quando
você fala de tal coisa?” Que primeiro nome vem a tua
cabeça quando você fala de guitarristas de rock?
Aí o cara pensa em mim. Por esse lado é bom, né.
Porque eu lancei dois discos no mesmo ano. O disco solo completamente
diferente e o álbum Aurora Consurgens que tem muitas músicas
minhas não só como guitarrista, mas também
como compositor e tudo mais. Eu acho que isso soma bastante. E
depois um disco mais de jazz e isso entre os músicos dá
respeito.
UR: E com o público?
Kiko: Entre o público do heavy metal eu
não sei o que as pessoas acham direito. Se realmente gostam
ou só falam que gostam e tal. Geralmente todo mundo fala
que gosta (risos). Entre os músicos, no mínimo rola
um respeito: “nossa o cara toca outro tipo de som”.
Isso aí acrescentou muito e os leitores da revista acho
que viram isso aí.
UR: A sua versatilidade, né?
Kiko: Acho que conta. O japonês considera
bastante essa coisa da versatilidade. O brasileiro também
considera muito. “Oh, o cara faz isso e também consegue
fazer aquilo. Olha que legal ele toca de tudo”. O brasileiro
tem um pouco desse pensamento.
UR: Lá fora em outros lugares
eles vêem muito isso?
Kiko: É em outros lugares como a Inglaterra,
por exemplo, você vai ver que as listas são mais
dos caras das bandas. Os guitarristas históricos nunca
vão deixar as listas. Também tem que ver que a eleição
é do ano de 2006. O negócio é aberto senão
o cara sempre coloca o Jimi Hendrix. Mas o japonês não
tem muito essa de ficar votando no Jimi Hendrix ou no Van Halen.
Já o inglês já teria Eric Clapton, Jimi Hendrix,
entre outros, que vão sempre estar ali, ou as pessoas que
estão continuando esse legado. Afinal, cada país
tem os seus critérios.
UR: Como tem sido a recepção
dos fãs do seu trabalho solo “Universo Inverso?”.
Kiko: Eu toco sempre as músicas e o pessoal
já conhece. Eu fiz um show que passou no programa “Bem
Brasil”, que foi exibido no dia 28 de abril. Foi legal.
Para mim a música primeiro vem pelo artista. Era uma necessidade
minha que eu quis fazer. Nasce daí. Muitas pessoas gostam,
outras respeitam e ninguém falou mal. Isso foi bom para
mim pelo fato de ser um estilo bem diferente a expectativa gerava
dúvidas. Se eu fizesse um disco igual ao “No Gravity”
eu ficaria mais preocupado em ter uma boa aceitação,
ou ser melhor que o anterior. Mas com esse CD eu não tinha
expectativa nenhuma de superar o álbum anterior. Era um
negócio à parte. A maioria das pessoas achou legal,
porque os músicos tocam super bem e foi um negócio
bem espontâneo. Isso ajudou bastante nessa premiação
do Japão. Os jornalistas de revistas de guitarras como
a Burn e de outras ficaram surpresos com isso aí.
Na realidade a gravação do disco em si foi um incentivo
da própria gravadora do Japão. Eles disseram: “Agora
é hora de você mostrar que também faz isso
aí. A gente lança o teu disco”. Quando eles
falaram isso eu resolvi arriscar, senão eu podia ter ficado
com o disco na mão sem ninguém pra lançar.
UR: E eles lançaram o trabalho
solo?
Kiko: Lançaram lá. Saiu na Europa
no começo do ano e está indo bem.
UR: E o “Aurora Consurgens”
está indo bem?
Kiko: Também está. Com a turnê
a gente está mostrando o trabalho. Estamos indo para o
México na próxima semana e para outros países
da América Latina. Estamos fazendo show direto. O mercado
está pior assim no mundo inteiro por uma série de
fatores que eu até imagino quais sejam. O Angra está
no meio disso. No Brasil está um pouco pior que em 2002
e 2003, por causa da internet que afeta as vendas de CD´s
e dos shows no geral. Isso pode ser uma coisa cíclica,
ou não. Já foi pior e voltou a melhorar. Na época
em que a gente lançou o “Rebirth” o mercado
estava bom. Nós demos sorte, assim como o Lula hoje dá
sorte no Governo porque o commodities está em alta no mundo
inteiro e ele tem um superávit na balança comercial.
O cara está se aproveitando disso. Aí você
lança um disco e está aquele boom de heavy metal,
como estava na época do Rebirth e um pouco depois. Foi
bom no geral. As bandas vinham ao Brasil e lotavam o Via Funchal
como o Edguy, o Nightwish. Depois o Nightwish parou, o Sepultura
também ficou mais devagar e no show do Edguy teve menos
gente. Teve uns shows menores. O Blind Guardian eu sei que foi
bom, apesar de eu não estar aqui. Eles vêm poucas
vezes pra cá. Agora está indo bem.
UR:
Mudando um pouco de assunto...Sobre aqueles quadros da pintora
francesa Marie Lambert. Você já conhecia a artista?
Achei super legal essa história dela fazer uns quadros
inspirados no seu trabalho.
Kiko: Eu já sabia desses quadros, mas
é que só agora ela me entregou um quadro. Já
faz tempo ela pintou um, depois outro e acabou fazendo uma série
de 35 quadros, justamente a idade que eu tenho. E aí ela
me entregou o último justamente nessa viagem. Ela foi lá
e levou o quadro, aí eu a conheci. Eu nem sabia a cara
dela direito. Ela me escreveu uns e-mails dizendo que estava pintando
os quadros. Ela não conhecia o Angra. Ela me viu por alguma
foto e gostou da imagem, da guitarra, sei lá. Aí
pintou um quadro e começou a ir atrás. Ela soube
que eu viajava muito por causa da minha banda Angra, ouviu e gostou
do som. E começou a pintar mais quadros só da guitarra,
do meu rosto e fez uma série. Ela me usou como um personagem
ali. Não era nem porque ela era fã do Angra, mas
era uma artista que viu uma foto minha e gostou da imagem. E pintou
um quadro baseado naquilo. E depois ela foi desenvolvendo, ela
foi ao show e entregou o quadro. Ela já expôs as
obras e ganhou prêmio por um dos quadros. Ela me contou
e eu achei bem legal. Agora ela quer fazer algum esquema de exposição
junto com um workshop. Ela já fez exposição
dos quadros, mas ela quer conectar a imagem com a música.
A gente está vendo isso. É interessante. Talvez
eu volte para a Europa em setembro e se rolar será legal.
UR: Tem alguma perspectiva dos quadros
virem para o Brasil?
Kiko: Os quadros são grandes e aí
não é um negócio mega, além de ser
uma coisa meio egoísta fazer uma exposição
só com quadros com a minha cara. O ideal é eu ir
para a França e fazer alguma coisa lá. E ela armar
uma exposição lá. Do que trazer um monte
de quadros pra cá. Para trazer o que ela me deu já
foi difícil porque ele era muito grande. Eu não
vi os outros quadros, só pela internet. Ela me pediu para
por o link. Esse site com esses quadros já existe há
alguns anos. Tanto que os quadros têm muitas coisas do “No
Gravity”. O tema foi esse CD.
UR: Voltando ao Angra. Vocês estão
retomando a turnê internacional agora em maio. Qual a sua
expectativa em relação a isso?
Kiko: Os países que nós estamos
indo como a Argentina, faz tempo que a gente não toca por
lá. No Peru nós nunca fomos. Então tenho
mais expectativas em tocar no Peru, por ser novidade. No restante
da América Latina será bom rever os amigos e conhecer
outras pessoas. Afinal, o grande lance da música é
isso: tocar e se divertir com as pessoas. No México essa
é a terceira vez que a gente vai tocar lá. Já
estamos a tanto tempo fazendo esses “giros”. Diferente
foi quando eu fui para Moscou ou para a Tunísia, lugares
em que você tem curiosidade em saber o que acontece daquele
lado do mundo. É legal, o negócio é ir lá
e fazer bons shows para manter os fãs. E voltar daqui a
uns dois anos.
UR: Você tem planos de quando voltar
da turnê com o Angra retomar os shows do “Universo
Inverso?”.
Kiko: Não. O Universo Inverso rola quando
tem algum show. A gente vai fazendo quando for pintando e encaixa
na agenda. O lado bom do Universo Inverso é que os caras
tocam muito bem e eles chegam e já saem tocando. Pode só
dar uma passadinha antes. Teve um show em Bauru que o Cuca (Teixeira)
não pode tocar e um outro batera tocou no lugar dele. Ele
pegou a partitura e saiu tocando. É um tipo de música
que se você ouvir o que o outro estiver tocando dá
pra tirar na hora. Isso é uma particularidade que os bons
músicos tem que ter e nem todo tem. E os de rock muito
menos. Os caras de jazz e MPB pegam bastante. É só
ouvir o que o cara está tocando e conseguir responder na
hora. Não precisa nem ensaiar muito, só precisa
entender o tipo de som. No rock as caras têm que ensaiar
mais porque tem coisas mais definidas.
UR: Na internet tinha um monte de gente reclamando sobre
o que aconteceu no show do Angra em Santo André. Qual é
a sua versão sobre o que aconteceu lá?
Kiko: Eu também não entendi direito,
mas na realidade reclamaram porque eu pedi para os seguranças
saírem. O que aconteceu é que a grade quebrou, mas
em vários shows isso já aconteceu. Aqui em São
Paulo não costuma acontecer, mas fora de São Paulo
acontece muito de quebrar a grade e as pessoas ficarem esmagadas.
E os seguranças ficam lá. Elas já estão
esmagadas e quando a grade quebra fica um desespero e elas não
tem onde se apoiar. Os seguranças não estão
preparados para isso. Eles entram no palco e ficam olhando para
as pessoas sem saber o que fazer com o show rolando.
Eu falei para eles saírem e quando terminou a música
eu fui lá atrás do palco e falei o que eles tinham
que fazer. O que aconteceu é que eles não sabem
agir nessa hora. Quando um cara invade o palco eles batem no cara.
Já paramos música no meio para pedir para o segurança
não bater nos caras, ou começa a puxar a pessoa
no meio do palco. Não é assim que se faz. Na realidade
o cara não pode entrar onde está o vocalista na
nossa frente e ficar, aliás, olhando para as pessoas tentando
resolver. O segurança tem que ir de lado sem atrapalhar
o show porque ele está rolando. A não ser que seja
um negócio grave a gente paralisa. Lógico que se
tiver pessoas sendo esmagadas não dá para perceber
o quanto está, porque a visão que temos do palco
é que sempre tem um monte de gente esmagada.
O segurança tem que socorrer as pessoas de lado sem bater
nas pessoas. No meio do palco o cara ficar parado de braços
cruzados não dá para os seguranças ficarem.
Organiza, meu! No Nordeste a gente chegou a levar segurança
nosso cara profissional que sabe controlar. É complicado
controlar a multidão.
Eu li um pouco do que o pessoal escreveu no meu blog, mas eles
não sabem o que aconteceu ali. No palco o segurança
não pode ir do jeito que eles foram por isso é que
eu pedi para eles saírem.
UR: O pessoal não entendeu muito
bem...
Kiko: Quem vai ao blog é o mesmo cara
que foi no show. Na hora não dava para perceber que estava
assim. Os fãs não têm noção
de que tinham duas mil pessoas lá. A gente fica com a vista
ofuscada pela luz e vê um mar de gente de preto e quem ta
na frente sempre está esmagado. O negócio caiu ali
e o pessoal ficou desesperado. O segurança não é
daquele jeito que se trabalha. O cara não entrou para pegar
aquela pessoa que ta passando mal. Eles não foram assim.
Os seguranças entraram no palco só para ver o que
estava acontecendo. O show estava acontecendo. Não é
assim que se trabalha, eles têm que aprender a trabalhar.
UR: Você tem alguma mensagem para
deixar para os fãs?
Kiko: Muito obrigado aos fãs. A gente
deve fazer mais uns shows em junho. Vai ter o “Piauí
Pop” em julho. Depois nós vamos dar uma parada, porque
a gente fez tudo seguido, a turnê e o disco. Faremos uma
parada de um mês para ver se vem umas idéias para
um novo trabalho. Os shows no Brasil acontecerão conforme
os pedidos, porque a gente já fez praticamente todas as
capitais. Se tiver contratantes que queiram fazer shows no interior
de São Paulo a gente faz. Agora será mais leve.
É um pouco do reflexo do mercado, porque na turnê
do Rebirth a gente voltou duas ou três vezes na mesma cidade. |