Entrevista com a banda Nervosa

Por: Marcio Baraldi

Foto: Pri Secco
Foto: Pri Secco

MULHERES A BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

Provavelmente tudo começou lá em Los Angeles em 1975 com as Runnaways, a primeira banda de bad-girls que se tem notícia. Até então era comum mulheres cantando a frente de uma banda de rock, mas um grupo só de garotas tocando todos os instrumentos e provocando o caos por onde passasse foi primazia de Joan Jett e Cia. Depois das Runnaways nada mais foi o mesmo, elas chutaram a porta do rock e entraram a força. E mais, abriram caminho pra que meninas do mundo inteiro montassem suas bandas e mostrassem suas garras pintadas e afiadas para um mercado machista como o do rock. Seguindo essa linha , surgiu há 4 anos em São Paulo a Nervosa, power-trio furioso que rapidamente destacou-se no cenário do rock pesado brasileiro e que acaba de lançar seu primeiro álbum, “Victim of Yourself”.

Formado por Fernanda Lira (baixo e vocal), Prika Amaral (guitarra) e Pitchu Ferraz (bateria), as meninas provam que não são apenas um trio de rostinhos bonitos, mas sim de profissionais cheias de atitude e de amor pelo thrash-metal. Pra conferir todo o nervosismo das bonitonas, Universo do Rock criou coragem e foi encarar as feras Fernanda Lira e Prika Amaral, duas gatas metálicas a beira de um ataque de nervos. Sai de baixooooo!….

1- A Nervosa completou 4 anos de estrada e conseguiu chamar bastante atenção em pouco tempo. Tem gente que acusa a banda de ser “queridinha da midia roqueira”, só porque é formada por garotas bonitas. O que vocês têm a dizer sobre isso?

FERNANDA: Gente pra criticar sempre vai ter, então não levamos muito em conta. Críticas construtivas a gente acata, agora qualquer baboseira só pra ofender, como esse lance de queridinha da mídia por exemplo, a gente desconsidera. Temos recebido várias propostas de entrevistas de sites, zines, blogs e revistas que realmente querem entrevistar a banda não por sermos “queridinhas”, mas pra dar oportunidade da gente falar sobre o nosso trampo, como acontece com qualquer outra banda. Sobre o lance de receber atenção da mídia por ser uma banda só de garotas, acho natural porque o metal ainda é um meio predominantemente masculino, mesmo com a participação cada vez maior de mulheres na cena. Banda feminina ainda é algo um tanto novo. Mas nós sabemos quão exigente é o público do metal e por isso NUNCA vamos limitar o diferencial da banda somente ao fato de sermos garotas, pelo contrário, nosso foco sempre será a música.É isso que importa no fim das contas, certo?

PRIKA – Existem outras bandas de mulheres no Brasil e no mundo, com garotas muito mais bonitas do que nós. Fico feliz por sermos queridas, nós batalhamos muito pela banda, somos profissionais e a mídia tem sido profissional conosco tamém. Se nós damos alguma audiência é porque o público gosta da nossa música e não porque nos vestimos de forma sensual como muitos artistas por aí. Não temos esse tipo de apelo visual, somos mulheres com camisetas de banda e tênis que tocam thrash metal. Não acredito que alguém seja tão idiota de acessar nosso site ou ver nossos clipes só pra ficar olhando nossos rostos, a galera acessa por que de alguma forma gosta do nosso trabalho.

2-Fernanda, você acha que o fato de ser uma jornalista descolada e bastante atuante no cenário metálico também ajudou a impulsionar a Nervosa?

FERNANDA: O que eu acho que impulsiona ou não uma banda é a música por si só. Se as pessoas não gostam da música a banda não vai pra frente, não importa quaisquer outras tentativas de promovê-la, a música é o que faz uma banda dar certo ou não! É claro que o fato de eu ter atuado como jornalista em diversos veículos de metal me ajudou a conhecer e me tornar amiga de muita gente e criar uma rede de contatos. Então quando eu anunciei a Nervosa, muita gente associou “Ah, essa é a banda da mina que escreve pra tal site!”. Acho que isso ajudou a mais pessoas terem o primeiro contato com a banda, mas não ajudou a “forçar” pessoas a gostarem dela só porque eu fazia parte, saca?

3-Aproveitem e digam, pra quem acha que tudo é fácil pra vocês, quais são as maiores dificuldades que vocês enfrentaram e enfrentam com a banda?

FERNANDA: Pior que tá cheio de gente que acha que a vida das bandas é fácil! Viver na pele ninguém quer, né (risos)? Mas falando sério, nós sofremos as mesmas dificuldades que qualquer banda batalhadora sofre. Nós é que fazemos TUDO dentro da banda, desde marcar shows, divulgar, correr atrás de van, de gente pra fazer o merchan, de apoiadores, enfim, tudo. E por conta disso, abrimos mão e deixamos pra trás muitas coisas na nossa vida, como trampos estáveis com salarinho fixo e um monte de benefícios, deixamos também faculdade e tudo mais. Vemos pouco nossas famílias e amigos, tudo pra gente focar e se devotar ao máximo à banda, e isso não é tarefa fácil. A pessoa tem que entender que mesmo que ela não goste de uma banda, se tá dando certo é porque existe muito sacrifício e trabalho duro por trás dessa banda.Nada cai do céu.

PRIKA- Preconceito não é problema pra mim porque eu simplesmente ignoro. Nossas dificuldades são as mesmas de qualquer banda: manter uma qualidade de equipamento de som, de valor de cachê, de número de shows bons, etc… O Brasil ainda está engatinhando nesse mercado, temos uma infinidade de ótimas bandas no Brasil, só falta estrutura para estas bandas e um maior apoio do público. Além disso, a economia brasileira precisa mudar, pois isso afeta diretamente tudo, alguns não tem dinheiro para ir em shows porque o seu salário não é suficiente para pagar as contas e ainda sobrar um pouco para diversão. Aí sem público não tem show e o mercado fica paralisado. Essas são as maiores dificuldades de qualquer músico no Brasil.

4-Aliás, eu queria saber se ser uma banda só de mulheres num mercado predominantemente masculino como o Heavy Metal, é mais dificil. Voces enfrentam preconceito e subestimação por serem uma banda de mulheres?

FERNANDA: Com a gente aconteceu mais no começo da banda, quando deu aquele boom, aquela coisa da novidade. Muita gente preferiu simplesmente atacar a banda, ofender e rebaixar a gente. Eu cheguei a sentir preconceito por um tempo, eu ficava com um gostinho de que sempre tínhamos que provar algo, que éramos headbangers como qualquer outro, que estávamos ali pelo amor pela música assim como uma banda de homens. Mas isso passou! Hoje em dia quando eu vejo uma crítica tipo “não gosto do som”, “precisam evoluir em seus instrumentos”, “as músicas precisam ser mais bem trabalhadas” eu leio e levo em consideração pois vejo que ali tem um embasamento pra crítica. Agora se eu vejo coisas do tipo “só fazem sucesso porque tem buc***”, daí eu já nem dou bola, porque esse tipo de atitude vem da educação da pessoa. Se a pessoa é preconceituosa, não vou ser eu que vou dar educação pra ela, né?

PRIKA – Os preconceituosos são minoria e não afetam em nada nossas vidas. Só o fato de ser músico no Brasil já significa enfrentar muitos obstáculos, e o preconceito por sermos mulheres é tão ridículo que nem considero. O preconceito é um problema de quem o possui, não nosso.

Foto: Pri Secco
Foto: Pri Secco

5-Vejo que vocês se dedicam muito à banda. A Nervosa já dá algum lucro ou vocês ainda tem que ter outros empregos pra viver?

FERNANDA: A realidade é que poucas bandas conseguem realmente viver SOMENTE de metal no Brasil. Viver de música é possível, mas somente de heavy metal é bem complicado, pois há uma instabilidade grande, pois nem sempre tem show, nem sempre o merchan paga as contas, então é complicado. Falando por mim, eu adaptei toda minha vida pra me dedicar quase que completamente à banda. Passo por algumas dificuldades por conta disso, mas foi a escolha que fiz e sou muito feliz por isso. Hoje em dia dou aulas de inglês particular por Skype duas vezes na semana e também tenho minha própria produtora de audiovisual, a “Alien – Foto & Video”, onde fazemos clipes e fotos promocionais pra bandas de metal underground a preços acessíveis, ou seja, são trampos flexíveis que posso tranquilamente conciliar com a banda. Então juntando tudo, consigo me manter relativamente estável financeiramente. O resto do meu tempo devoto à banda, pois quero estar cada vez mais perto desse sonho de viver somente da música!

PRIKA – Bom, eu larguei meu emprego recentemente e estou tentando sobreviver só de música. Dá pra viver sim, mas de uma maneira bem simples,sem grandes luxos. Estou buscando caminhos junto a banda para complementar a renda, existem alguns caminhos sim, porém todos exigem um pouco de dedicação, e isso vai depender de quanto tempo a banda irá me disponibilizar.

6-Fernanda,você também foi repórter do programa Maloik na webtv e é uma das âncoras do programa Heavy Nation, na rádio UOL. Fale desses seus trabalhos. Isso lhe dá alguma experiência pra lidar com esse mercado do rock e metal?

FERNANDA: Cara, eu já colaborei com a Rock Brigade, com o Whiplash, e com vááááários outros veículos na imprensa metálica, entrevistando, fazendo resenhas, tirando fotos, e isso tudo me deu experiência fora e dentro do metal. Foi com a imprensa headbanger que pus em prática as coisas que estudei no pouco tempo que fiz de faculdade de jornalismo, e também me ajudou muito a entender como as coisas funcionam nos bastidores, em cima e fora do palco em um show. Me ajudou a lidar com gente legal e também com gente mala, me ajudou a entender que existem pessoas boas e também pessoas que não sabem lidar com o mínimo de poder que têm nas mãos. Quanto ao Heavy Nation, é o único veículo que mantive firme até hoje e eu adoro fazê-lo. O programa não só me ajuda profissionalmente, como também me ajuda a contribuir com o metal nacional, pois lá divulgamos inúmeras bandas brasileiras, promovemos debates,etc. Enfim, adoro o programa e me sinto muito feliz nele!

7- E por falar em mercado, sabemos que hoje o rock, metal e pop estão praticamente fora da grande mídia , que só se interessa por funk, sertanejo e similares. A seu ver porque caiu tanto a atenção da mídia e do grande público para esses estilos?

FERNANDA: Cara, a gente tem que aceitar que isso é um pouco cultural. O metal e o rock em geral sempre foram marginalizadas pela mídia, que no Brasil ainda é um instrumento forte que molda a opinião das massas. Nós nunca recebemos muito apoio da grande mídia, é por isso que o público em geral não tem interesse por esses estilos ou tem preconceito com eles. Além disso, geralmente as pessoas tem essa tendência de gostar de ouvir o que é mais “fácil”, mais “acessível”, e eu não culpo ninguém por isso. As pessoas tem que ouvir o que faz elas se sentirem bem, e nem sempr o metal é essa opção. Eu já nem sinto muita falta desse apoio, pois o metal aqui no Brasil sempre se virou por conta própria, já nos acostumamos a ser uma cultura alternativa, e muita gente até gosta que seja assim.

PRIKA – O Brasil atualmente vive de pão e circo, o rock não se encaixa nesse circo e por isso ficou de fora. O rock é algo muito crítico, muitas bandas possuem letras de protesto, que fazem você pensar e ir contra a política vigente e outras questões sociais. Isso não é bom para quem está no poder, bom é alienar o povo e deixá-lo cada vez menos esperto e inteligente. É dificil acreditar que isso aconteça nos dias de hoje, mas infelizmente é real, a diferença é que hoje é tudo mais disfarçado.

Foto: Pri Secco
Foto: Pri Secco

8-Voce não acha que o público headbanger brasileiro é ingrato com as bandas nacionais? Aquele famoso “complexo de viralata” que Nelson Rodrigues atribuiu ao povo brasileiro, não se manifesta com grande intensidade no público roqueiro? É muito comum ver o roqueiro brasileiro pagar 400, 00 pra ver uma banda gringa e se recusar a pagar 15,00 pra ver uma nacional. A seu ver, por que isso ocorre?

FERNANDA: Eu acho que as pessoas aos poucos tem entendido que há bandas brasileiras tão boas quanto as gringas. Eu vejo muita gente apoiando por aí, e eventos só com bandas nacionais se tornando cada vez mais frequentes. Mas mesmo assim, a gente não pode negar que grande parte das pessoas dá mais importância pra banda gringa. Dois dos principais motivos que eu destacaria, são que , primeiro, muita gente começou ouvindo metal com banda gringa, passou a vida sendo influenciada por banda gringa, e quando a banda vem pra cá as pessoas simplesmente querem ver seus ídolos. Por isso acho que esse lance de inserir banda nacional no gosto das pessoas tem que vir de cedo. Uma banda como o Iron Maiden é muito mais fácil de você ouvir falar por aí do que o Sarcófago, por exemplo, então quando a molecada tá começando a ouvir metal, naturalmente ela vai procurar as bandas que ela ouve falar mais. A não ser que tenha alguém ali pra mostrar pra ela esse outro leque de opções de bandas nacionais. Eu tenho uma irmã pré-adolescente que se interessa um pouco pelo metal e eu sempre mostro bandas nacionais pra ela. E tem mais músicas que ela gosta do Claustrofobia, por exemplo, do que do Kiss. Fazem algumas semanas, eu levei pra ela cds do Korzus, Krisiun e Ratos De Porão, ela só conhecia o Ratos e adorou as outras. Então pode ser que se ela mais pra frente virar fã de thrash, ela comece com Korzus do que com Nuclear Assault, porque foi o que ela conheceu primeiro, sacou? Acho que isso é um processo cultural que aos poucos vai sendo mudado. O segundo fator, acho que é um pouco a qualidade dos eventos. Eu felizmente tive oportunidade de conhecer produtores de shows maravilhosos e competentíssimos com a Nervosa, que usavam a inteligência e o bom gosto pra fazer o evento dar certo, assim como tivemos um ou outro que não eram tão sérios. Isso resulta as vezes em eventos precários, com qualidade de som ruim, etc. É claro que eu entendo que a maioria dos produtores tira leite de pedra pra fazer evento e na maioria das vezes tem pouco ou nada de lucro, mas ele tem que entender também que nem todo mundo gosta de ir em shows com estrutura precária. É preciso os dois lados dessa questão. Por isso eu sempre falo que a chave pra cena crescer cada vez mais forte, é a galera sempre prezar pela qualidade dos eventos.

PRIKA – Eu não gosto de generalizar desta forma, porque temos feito muitos shows ótimos e a galera tem apoiado muito a cena underground. Mas realmente alguns agem dessa forma que você falou, mas acho que é questão de educação de cada um. É preciso saber distinguir o que é bom do que não é. Acho triste quando alguns dizem que uma banda brasileira só se torna boa quando faz sucesso no exterior. Ué, agora precisa de um selo internacional pra ter valor? É vergonhoso isso! Mas tudo é muito relativo, e todas as bandas devem adotar estratégias a seu favor, como não marcar show em dia de show internacional, por exemplo, porque muitos pensam que a banda gringa demora a retornar ao Brasil ou nem retorna. E por isso preferem a banda gringa, porque a banda nacional sempre toca por aqui. Quanto aos valores, aí sim é algo aterrorizante, porque a banda gringa quando vem ao Brasil já cobra um cachê bem mais alto porque sabe que os brasileiros pagam o quanto for. Acho que deve haver um equilíbrio para tudo funcionar, pois cada show, independente de ser nacional ou internacional, ajuda a aquecer nossa cena. Muitos blogs, zines, revistas, etc, vivem disso.

9-Nos anos 80 era muito comum a molecada atravessar a cidade para ver um show de uma banda nacional, que eram vistos como verdadeiros “heróis” pela molecada. Porem hoje, com o excesso de informação e facilidades da internet, as novas gerações parecem “ter tudo fácil demais” e não dar valor para o trabalho alheio. Vocês têm essa sensação também?

FERNANDA: Olha, eu acho que as pessoas de um anos pra cá se acomodaram mais, tem gente que pensa que apoiar uma banda é apenas assistir seu clip no Youtube. Esquecem que é essencial ir num show, comprar material, indicar pros amigos. Mas eu também não vejo a internet como um grande vilão. Todo mundo sabe que apesar desse lance da internet ter mudado a maneira das pessoas consumirem música, o público metal é um dos poucos que ainda compra Cds. Ele coleciona, ele gosta de ler o encarte e saber detalhes da produção, gosta de comprar camiseta e sair com ela na rua. Então eu acho que a internet não é 100% ruim, pelo seguinte: ela apenas ajuda a divulgar o som, a fazer as pessoas terem um primeiro contato com a banda antes de comprar o material. Se o cara ouvir na internet sua música e gostar, na primeira oportunidade que sobrar uma grana e que ele ver que o preço do seu material tá justo, ele vai comprar, sempre funcionou assim. Quantas bandas eu não conheci por conta das fitinhas que meu pai gravava pra mim? Por conta dos clipes que eu via e gravava em VHS? Acho que a internet cumpre hoje o papel das fitinhas K7 que a galera gravava pros amigos conhecerem uma banda, cumpre o papel do clipe que a gente via no programa e dali se interessava pela banda.

PRIKA – Eu vejo isso somente na cidade de São Paulo e em algumas capitais, pois nestes lugares tudo acontece e o público é mais entediado por ter tudo fácil o tempo todo. Mas se você for a outras regiões onde poucas coisas acontecem a coisa é bem diferente, a galera dá bem mais valor! Não devemos culpar o público, e sim nos adaptar a essa situação. E usar a ferramenta da internet a nosso favor sempre.

10-Vocês acabaram de lançar o primeiro disco da Nervosa, o “Victim of Yourself”, como está a recepção por parte do público e da midia especializada?

FERNANDA: Eu gosto muito de acompanhar as redes sociais e também mantenho sempre um laço estreito com as mídias que publicam coisas a nosso respeito. E pelo que tenho visto, fico muita satisfeita e feliz em dizer que acho que conseguimos atender às expectativas do pessoal que estava esperando nosso disco de estréia. Temos recebido muitas mensagens e manifestações de apoio, galera comparecendo nos shows e comprando o disco, resenhas bacanas e além disso, vejo muita gente que viu nesse disco uma evolução em relação ao nosso último trabalho, e por isso, mesmo que ainda não goste da música, passou a nos respeitar. Isso é muito bacana. Estou muito feliz com o resultado, está até um pouco além do que esperávamos!

PRIKA – Tem sido surpreendente, eu não esperava todo esse retorno. Muitas críticas positivas, muitas pessoas estão surpresas com o nosso trabalho e temos uma boa venda! É muito gratificante obter esse retorno tão rápido, só nos deixa feliz e com uma força maior para um próximo trabalho, que logo mais começará a ser construído.

11-Como foi a experiência de trabalhar com os produtores Heros e Pompeu ( do Korzus)? Eles conseguiram tirar o máximo de cada uma de vocês como instrumentista? As gravações foram tranquilas? Tem alguma história bacana pra contar que aconteceu no estúdio?

FERNANDA: Escolhemos trabalhar com o Heros e o Pompeu, lá do estúdio Mr. Som, porque já tínhamos trabalhado com eles no nosso EP anterior e conhecíamos bem a qualidade da produção deles. Como queríamos manter o nível que conseguimos no nosso EP, decidimos não arriscar e apostar novamente no trampo deles. Eu particularmente gostei muito do resultado final. Quanto aos vocais, sempre curto muito quando o Pompeu produz minha voz, porque ele é um dinossauro do thrash brasileiro e por isso tem muita experiência (risos). Ele sempre extrai o máximo da minha voz, e me mostra muitas opções e maneiras novas de trabalha-la dentro do meu estilo de canto. Ele tem idéias e dicas preciosas. Quanto ao Heros, o processo de mixagem e masterização com ele foi precioso pra mim. Eu tinha uma idéia do timbre que eu queria pro meu baixo, me espelhei muito no Alex Webster do Cannibal Corpse, e ele me ajudou a chegar bem perto do que eu queria. Ficamos um tempo focados somente no baixo pra achar o timbre ideal, e depois caprichamos bastante nos timbre médios. Conseguimos fazer com que ele entrasse em pleno equilíbrio com os outros instrumentos, adicionando peso, mas mesmo assim estando bem audível e cristalino. Fiquei muito satisfeita!

PRIKA – Nós já chegamos com tudo pronto e estávamos com pressa devido aos prazos da gravadora, tivemos alguns contratempos, mas no final deu tudo certo. Dei o máximo de mim nessa gravação, porém tive problemas de saúde, tive uma crise de tendinite, o médico engessou o meu braço e me receitou antibióticos. Eu tirei o gesso contra a vontade dele e fui terminar de gravar, porém muita coisa eu tive que simplificar na gravação porque fisicamente não consegui executar devido a tendinite. Mas eu fiquei satisfeita com o resultado, pois de certa forma foi uma superação. Já espero ansiosamente o próximo disco(risos).

12-A Nervosa era um quarteto no começo, mas depois fixou-se como trio. Vocês sentem falta de uma segunda guitarra ao vivo?

FERNANDA: Eu não sinto, principalmente porque sempre fui muito fã de power-trios no rock e metal. Alguns dos meus maiores heróis estão em bandas como Rush, Motorhead, ZZ Top, Coroner, Destruction, então sempre fui muito habituada à sonoridade e à maneira de compor dos trios. Entendemos que pra uma banda ficar firme é preciso muitas coisas além da música. E na minha opinião, ser um trio facilita em muitas coisas: compor, viajar, tomar decisões, lidar umas com as outras, tudo fica mais fácil e viável! Além disso, a formação hoje está bem sólida e harmoniosa, eu não arriscaria por nada esse bem estar apenas pra adicionar uma guitarra na banda. Vamos cada vez mais nos adaptando a essa maneira de compor, com apenas uma guitarra, pois é um desafio que gostamos e que vale a pena.

PRIKA – Se as músicas forem compostas apenas com uma guitarra, uma segunda guitarra não faz falta. Agora se formos tocar um cover de alguma banda com duas guitarras, aí sim uma segunda guitarra fará falta, caso contrário é bem normal e natural. Quando se tem duas guitarras e uma erra é quase imperceptível, agora quando se tem uma guitarra só, um erro é fatal. Isso pra mim é um desafio e só me faz evoluir.

13-Vocês já têm convite/planos para uma turne no exterior? Na sua opinião, onde está o melhor mercado para o thrash metal hoje: Europa e Japão? Os EUA ainda são um bom mercado?

FERNANDA: Eu acho que cada mercado é especial e bom de uma maneira. Na Europa temos os grandes festivais, nos Estados Unidos se uma banda consegue fazer sucesso, abre muitas portas pra todo mundo, no Japão e na América do Sul os fãs são fiéis, fervorosos e muito apoiadores. Então acho que cada lugar do mundo contribuiu pro metal de uma maneira diferente, cada uma tem seu valor. Faremos uma turnê bem bacana pelo Brasil que incluirá principalmente o Norte e Nordeste durante outubro e novembro. Antes disso, em setembro, vamos fazer nossa primeira turnê sul-americana. Para dezembro temos em mente alguns planos e algumas coisas confirmadas na América Central. Depois disso, quando tivermos feito de forma bem sólida a divulgação do disco na América Latina, vamos analisar algumas propostas que temos para Europa e América do Norte. Temos muita coisa bacana pra anunciar em breve!

PRIKA – O mundo inteiro tem um bom mercado, é só saber compreender a diferença de funcionamento entre cada um deles e saber trabalhar em cada um. Claro que na Europa, Japão, EUA e Canadá é mais fácil tocar por serem ricos e organizados. Já em outros países mais pobres dá pra fazer acontecer do mesmo jeito, só que tem que haver maiores cuidados e estratégias. O trabalho é maior, mas os frutos serão os mesmos.

14- Voce acha que “movimentos” como grunge e new-metal foram mais modas passageiras, pois acabaram em poucos anos , enquanto o thrash metal continua com público fiel pelo mundo até hoje? O que vocês acham que o thrash possui para durar tanto tempo assim?

FERNANDA: Eu acredito que o público do metal em geral é muito fiel e contribuiu de muitas maneiras pra manter o legado do metal vivo por décadas, e por isso o metal é um dos poucos estilos que tem uma cena sólida em TODO CANTO DO MUNDO! Nós valorizamos muito as bandas antigas e não deixamos elas serem apagadas da memória, nós apresentamos bandas para conhecidos, amigos, familiares,etc. Acho que a paixão do headbanger contribui muito pra manter o metal sempre vivo.

PRIKA – Estes movimentos ainda existem, só que de maneira underground. Deixaram de ser modinha na grande mídia assim como acontece com todos os estilos um dia. O thrash metal é mais antigo e mais consolidado por isso temos um público maior, sem contar que todos esses estilos que voce citou se influenciaram pelo thrash metal. O thrash é algo mais completo, enraizado e consolidado nos anos 80, é estilo de vida pra muita gente e nunca dependeu da grande mídia pra sobreviver, nós temos a nossa própria mídia especializada.

15- Vocês só curtem metal, ou ouvem outras coisas como MPB, pop , blues ou jazz, por exemplo, pra reciclar as idéias?

FERNANDA: Não só pra reciclar idéias, mas por questão de gosto mesmo. Fora do metal, minha paixão é o blues! Conheço muito e ouço muito esse estilo e muitos dos meus heróis na música estão no blues. Assim como o metal, o blues é um estilo de música muito relacionado a sentimento. Eu coloco mil vezes o feeling, o sentimento, acima de qualquer técnica ou punhetagem nos instrumentos. Sou aficcionada por vocalistas femininas, e muitas delas estão no blues, no soul e no folk. Tudo isso me influencia muito na hora de compor pra Nervosa, por incrível que pareça(risos).

PRIKA – Eu também curto muito blues. Para um guitarrista o blues é fundamental, principalmente na construção de solos. Eu amo Buddy Guy, Stevie Ray Vaughan, BB King, Jimi Hendrix, etc.
Gosto muito de alguns discos do Grand Funk, gosto de algumas coisas de jazz mas não me aprofundei muito no estilo. Minha essência se limita ao metal/rock e blues mesmo.

16-Quais são os próximos planos da Nervosa? Se vocês tivessem um milhão de reais pra investir na banda, o que vocês fariam?

FERNANDA:Nossos próximos passos são divulgar o disco da melhor maneira: na estrada! Enquanto isso, em breve vamos começar a compor músicas para um disco novo, pois a máquina não pode parar(risos).

PRIKA – Muitos shows! Nós queremos tocar todos os dias se possível! Temos algumas turnês pela frente, mas ainda esse ano nós começaremos a compor um novo disco.
Se eu tivesse um milhão de reais, eu compraria um ônibus e um avião (risos). Não sei quanto custa um avião, mas se conseguisse comprar esses dois, conseguiríamos viabilizar muita coisa, com certeza. Meu sonho de consumo é um avião(risos)!…

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