Entrevista com a banda Barão Vermelho

Entrevista: Gustavo Maiato
Edição: Gustavo Franchini

Foto: Marcos Hermes

Uma das mais icônicas e influentes bandas do rock brasileiro, o Barão Vermelho conquistou o mundo com sua sonoridade única e composições que remetem a temas diversos do cotidiano. No passado, contou com lendas como Cazuza e Frejat, que em definitivo deixaram sua marca na trajetória do grupo. Atualmente, a banda vive uma nova fase, com a entrada do talentoso vocalista e guitarrista Rodrigo Suricato, além da volta triunfante do tecladista e produtor Maurício Barros.

E é Maurício Barros quem nos fala tudo sobre o lançamento do novo álbum de inéditas Viva, o primeiro desde 1986 sem a voz de Frejat e 15 anos após o disco anterior. Confira a seguir!

Universo do Rock: Sobre a sua volta ao Barão Vermelho, agora você está na ‘linha de frente’, apesar de nunca ter abandonado de fato a banda. Como é para você essa nova realidade?

Maurício Barros: Na realidade, desde a formação original, acho que fiquei apenas alguns anos fora da banda. Ao longo desses anos, em parceria compus músicas como “Puro Êxtase”, “Por Você”, “Cuidado”, dentre outros sucessos. Continuei participando como músico em shows, gravando e produzindo disco com eles, inclusive nas decisões do grupo; informalmente sempre participava. Mas nesse momento, de modo oficial, estou decidindo as coisas junto com os outros três membros, além de ter produzido todo o novo álbum Viva!

Universo do Rock: Por falar no novo álbum Viva, também temos a estreia do vocalista Rodrigo Suricato. Você sente que há comparações entre ele e os vocalistas que já passaram pela banda? Como está sendo a aceitação, seja pelos fãs, seja pelos outros integrantes?

Maurício Barros: Eu quem fiz o convite. Sugeri o seu nome, após o cargo deixado pelo Frejat, e os outros integrantes acharam bacana! Eu tinha certeza que ia funcionar, pois tinha feito com ele um projeto no qual convivemos por uns 6 meses, uma banda montada pelo famoso produtor e baixista Liminha, chamada Nivea Viva Rock Brasil, percorrendo várias capitais pelo país. Além do Liminha no baixo, eu no teclado e o Rodrigo na voz/guitarra/violão, tínhamos a participação de músicos como Dado Villa-Lobos (guitarra), Milton Guedes (gaita e saxofone), Nando Reis, Paula Toller, Marjorie Estiano (substituindo a Pitty, que ficou grávida) e o pessoal do Paralamas do Sucesso, como o João Barone na bateria. Durante essa apresentação pude ver todo seu talento como músico e intérprete! Mesmo já dentro de um projeto, ele topou na hora, dizendo que era ‘fã de carteirinha’ do Barão Vermelho. Rolou uma sintonia tão grande entre eu e ele que já estávamos compondo músicas juntos, então já conseguia vê-lo como mais um futuro compositor na banda.

Sobre a pergunta da comparação com outros vocalistas do Barão por parte dos fãs, não estamos vendo algo tão grande agora. Logo no início, quando a notícia de sua entrada na banda foi veiculada, houve certa resistência do público e fãs mais ferrenhos, mas estávamos confiantes do som que fazíamos e também pelo fato de a gente já ter passado por isso antes, na época do Cazuza. Hoje em dia, não tem mais isso, pois a postura do grupo tem tudo para seguir o caminho em frente e o importante é o Barão estar vivo. Em shows, após a segunda música, é muito legal de perceber como a plateia já está totalmente convencida de que éramos nós no palco. O Rodrigo é muito carismático e respeita a história da banda. No telão mostramos vários ex-integrantes, ou seja, na verdade o Barão é muito mais do que isso. Afinal, uma banda com trocas de vocalistas é quase comparável ao Deep Purple (risos)! Conseguir seguir adiante após vocalistas de peso como Cazuza e Frejat, considerados a ‘cara do grupo’, não é pra qualquer um, tem que estar com muita vontade mesmo!


“Mais do que nunca é a hora de dar as mãos e entender que o amor é revolucionário.”


Universo do Rock: A música “Eu Nunca Estou Só” teve a participação do rapper BK. Gostaria que nos falasse um pouco sobre a concepção da mesma e a ideia do convite.

Maurício Barros: A gente tinha a vontade de dar voz ao rap, hip hop, pelo olhar da contestação, algo que o rock sempre teve, mas esses estilos cada vez mais possuem esse contexto. Achamos que a mistura com o som do Barão seria muito legal. Chegamos no BK, um cara talentoso e muito bacana, fizemos o convite e ele topou, com liberdade na composição, ficou ótimo. É interessante que o nosso público conheça o BK e também que o dele ouça o Barão, pela mistura de gêneros.

Universo do Rock: A cantora Letícia Novaes (Letrux) também se fez presente no novo álbum.

Maurício Barros: Exatamente. A gente queria uma voz feminina no disco em si, achamos que seria importante dar voz à mulher nesse momento, somos totalmente a favor da diversidade. Ela colocou a alma dela ali e ficou muito bacana!

Universo do Rock: As músicas do Barão Vermelho sempre foram marcadas por letras que falam sobre ‘amor’. No Viva, vemos também essa questão da ‘tolerância’. Como classificaria a parte temática das canções?

Maurício Barros: Na minha opinião, nós estamos vivendo um tempo de ódio, intolerância, dentre outras coisas e o título do álbum é um ‘viva a vida’, de resistência. Mais do que nunca é a hora de dar as mãos e entender que o amor é revolucionário. O álbum fala de solidão, amizade e, por que não, amor. Sobre tolerância, a música “Jeito” aborda essa questão de cada um ser do seu jeito e todo mundo ter que respeitar as diferenças.

Capa do Álbum: Divulgação

Universo do Rock: A banda começou na década de 80 e a realidade do cenário musical brasileiro era outra. O rock estava em alta, vendendo muitos álbuns. Atualmente vemos o estilo em segundo plano.

Maurício Barros: Acho que não se restringe só ao Brasil essa realidade. Apesar das grandes bandas de rock permanecerem e bandas novas interessantes surgirem, hoje em dia é cada vez mais difícil conquistar espaço, pois todo mundo tem acesso às plataformas digitais que facilitam lançamento de novas músicas, muita informação ao mesmo tempo, o que torna mais complicado fazer um barulho mesmo. Mas estamos tendo uma receptividade boa! Independentemente de qualquer coisa, ficamos muito felizes com o resultado do novo álbum, pois queríamos botar o Barão com uma sonoridade atual, sem deixar de ser o Barão. Dar um passo adiante, considerando que o mundo mudou e precisávamos estar antenados às mudanças. Buscamos isso na produção, nas letras das composições, mantendo a qualidade que o Barão sempre teve. Ao mesmo tempo, sintonizados com o que está acontecendo à nossa volta, falando das nossas vidas, já que ‘quanto mais pessoal, mais universal’. Queríamos um disco que fosse o Barão de 2019, olhando para o futuro, sem deixar a essência do nosso som original de lado.

Quando o Fernando pega na guitarra, eu toco um Hammond e o Guto na batera, está tudo ali! Além de cantar, o Suricato também é um grande guitarrista, violonista; ele se dedica a isso também.

Universo do Rock: Quais seriam os tecladistas/pianistas que você tem como referência em sua trajetória?

Maurício Barros: Pensando lá atrás, poderia citar Elton John, além de Benito de Paula e Tom Jobim, para não deixar de citar brasileiros. Uma grande influência para mim foi Rick Wakeman, somado a Keith Emerson e Jon Lord, dentre outros. Depois de um tempo, comecei a ter interesse no Brian Eno, com teclados mais experimentais, de ambient music. É muita gente (risos)!

Universo do Rock: Em nome da equipe do Universo do Rock, agradeço pela gentileza em nos conceder essa entrevista e desejo muito sucesso na nova fase do Barão Vermelho!

Maurício Barros: Muito obrigado, nos vemos no show do Rio, um grande abraço!

Saiba mais sobre o Barão Vermelho: Facebook, Instagram, Spotify e YouTube.

Crédito foto da citação: Marcos Hermes

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