Documentário “Ultraje” e bate-papo com a banda Ultraje a Rigor

Por: Flávia Carvalho

Que a banda Ultraje a Rigor coleciona anos de carreira e muitas histórias para contar não é novidade para ninguém, mas agora é possível ver – uma parte – dessa trajetória no documentário recém lançado “Ultraje”. Com direção de Marc Dourdin e roteiro de Daniel Chaia, o documentário estreou no último dia 31 de janeiro, e está em exibição em 20 salas de cinema, o que é considerado ótimo, segundo o diretor Dourdin.

Breve síntese sobre o documentário “Ultraje”

O documentário “Ultraje” conta a trajetória da banda Ultraje a Rigor, e começa focando na amizade do vocalista e líder da banda Roger Moreira com Leonardo Galasso, mais conhecido como Leôspa (bateria), mostrando o início da formação da banda, com Edgar Scandurra (Ira!) na guitarra e Silvio, que logo foi substituído por Maurício Defendi, no baixo.

A partir daí, os acontecimentos são contados de forma cronológica, mostrando a banda deixando de tocar cover para fazer autoral, passando pelas estratégias bem-sucedidas de marketing – os caras pichavam muros com o nome da banda e chegaram até a ser pegos por um policial “casca grossa”, mostrando o início de contrato com gravadoras e, finalmente, chegando aos shows com recordes de público e ao auge do sucesso. São mostradas entrevistas com muitas pessoas que fizeram parte direta ou indiretamente dessa jornada, como produtor Liminha e o ex-presidente da Warner, André Midani.

Se por um lado, o documentário mostra toda a identidade divertida e brincalhona da banda, passando pela fase “sexo, drogas e rock n’ roll”, e pelas bagunças em hotel e participações em programas de TV como os programas do Chacrinha e da Xuxa; por outro, mostra também a fase de declínio, com pouca música sendo gravada, diversas trocas de integrantes, o que fazia com que a banda tivesse inúmeras formações e algumas diferenças de estilo. O documentário também mostra briga entre Roger e Maurício e polêmica sobre a acusação de estupro de uma garota contra do vocalista Roger, o que traz um tom mais sério para o documentário.

Apesar de mostrar essas polêmicas, o documentário possui um tom leve, com muitos trechos divertidos de entrevistas e gravações antigas, mostrando bem a essência da banda como um todo, e isso se dá graças a contribuição de cada integrante e pessoas que fizeram parte dessa história.

Bate-papo com a banda Ultraje a Rigor

Nessa quarta-feira (06/02), rolou, no Cinemark do Shopping Eldorado, uma sessão especial de exibição do documentário seguida de um bate-papo com alguns integrantes (ex e atuais) que fizeram parte da história da banda. Estavam presentes:Roger, Leôspa, Maurício, Heraldo, Mingau, Marcos Kleine e Flávio Suete. O bate-papo iniciou em tom divertido, com a perguntas abertas ao público que foi assistir ao documentário.

Já no início do bate-papo, Roger, ao ser questionado sobre a musicalidade da banda, contou que, no começo, houve descontentamento porque, na gravação, o som acabava sendo suavizado, ficando apenas baixo e voz, as guitarras eram retiradas, e isso incomodava os músicos, mas, com o tempo, eles foram aprendendo a usar o estúdio e a moldar as músicas de acordo com o estilo que eles queriam. Leôspacomentou que, uma vez, o Liminha, que era o produtor da banda, foi ver um show ao vivo deles e depois disse que teria mudado tudo na gravação e mixagem porque ele viu que a banda era mais “suja” e pesada ao vivo do que nas gravações. 

Ao ser questionado sobre polêmicas com o politicamente correto, Roger comentou um caso relacionado ao Caetano Veloso, no qual um integrante da banda acabou fazendo uma “piadinha” sobre sexualidade e isso gerou “um certo bafafá” e disse que, hoje em dia, a repercussão seria ainda maior. Leôspaafirmou que, com o tempo, eles aprenderam a filtrar mais e ter mais senso na hora de fazer comentários, principalmente em frente à mídia, porque às vezes o recorte que sai em reportagens pode ser diferente do que o que eles quiseram dizer de fato. Roger finalizou relembrando um caso no qual ele fez um comentário sobre alguns equipamentos no programa do Faustão e acabou tendo problemas com a Receita Federal.

Em outro momento, os integrantes foram perguntados sobre o cenário atual da música, e Leôspa respondeu contando que, antigamente, as bandas faziam mais música por prazer, a troco de quase nada. Às vezes, o cachê era em bebida e risole. Já atualmente, muitos artistas são criados para produzir uma música que faça muito sucesso e depois acabam sendo descartados e substituídos por outro artista com a nova música do momento. Por isso, é difícil ver uma banda atual que dure muito tempo, como o Ultraje durou, por exemplo. Roger aproveitou para comentar que existe muita diferença na forma como as bandas e os artistas são produzidos hoje em dia, porque é tudo mais fácil, existe mais acessibilidade para o próprio artista pegar e gravar seu próprio clipe com o celular, por exemplo, mas antigamente, tudo dependia da gravadora e de passar pela aprovação de alguém.

Por fim, Roger e Leôspa comentaram sobre a forma de divulgação de antigamente em comparação a hoje em dia. Segundo eles, antigamente, a divulgação se dava mais por meio de ligações para as rádios para pedir música e isso acontecia muito com a ajuda dos fã-clubes. A comunicação com os fãs também era diferente e mais difícil, porque era feita por meio de cartas e nem sempre eles conseguiam responder, já hoje em dia, tudo é muito mais fácil e rápido com o uso das redes sociais. Ainda sobre divulgação, Roger comentou que, apesar de hoje em dia tudo ser mais fácil, ao mesmo tempo, todo mundo tem acesso a esse tipo de ferramenta, então a divulgação acaba se tornando mais competitiva.

Curiosidade

Uma história que não foi mostrada no documentário, mas a banda quis contar no bate-papo foi de quando eles foram fazer um show em Nova York. Todos os detalhes da viagem já estavam certos, haviam conseguido a promessa de uma boa hospedagem e tudo mais. Porém, quando chegou o dia de viajar, Roger quase desistiu de última hora – para quem não sabe, o vocalista não anda de avião porque desenvolveu pânico.Foi necessário insistir muito para conseguir fazer o vocalista sair de casa.Heraldo conta que, quando estavam em pleno voo, eles foram alertados de que não poderiam fumar, mas acabaram pedindo permissão para a Aeromoça, porque o Roger estava muito nervoso e precisava fumar para acalmar – e, caso você esteja se perguntando, saiba que eles conseguiram.

Viés político

O vocalista e líder do Ultraje a Rigor, Roger Moreira, é conhecido por ser uma pessoa que expõe publicamente sua ideologia política, muitas vezes sendo visto como uma persona non grata. Esse viés político polêmico não é mostrado no documentário, mas, durante o bate-papo, o vocalista foi perguntado sobre seu posicionamento e comentou sobre o fato de “inútil” ter se tornado a trilha sonora das Diretas Já,dizendo, em tom de brincadeira “essa não era uma preocupação minha. Eu não era de esquerda, nem de direita… e nem sou hoje de direita como imaginam que eu seja. Sou um cara lógico, sou praticamente um senhor Spock, de Vulcano”, fazendo referência ao personagem de Star Trek que é conhecido por ter raciocínio lógico e não demonstrar emoções.

Veja o trailer oficial do documentário “Ultraje”:

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