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Hellion Records
 Matéria

abril/2008
O Rock em todas as vertentes na Virada Cultural de 2008
Texto:Giu Furlan
Fotos: Adriana Camargo e Giu Furlan
 

A população paulistana sempre envolta por uma sensação claustrofóbica e de medo que sua cidade impõe, pelo menos uma vez por ano pode usufruir uma fantasia de amplitude e liberdade que só um evento como a Virada Cultural é capaz de propiciar. Poder ir e vir livremente sem grandes apreensões (a segurança estava bem reforçada), olhar com calma e vagar a fachada dos prédios, ocupar assentos em teatros gratuitamente e deparar-se com diferentes formas de arte num mesmo dia é um presente nada desprezível, mesmo que fugaz. Além disso, a aposta na diversidade é, sem dúvida, um acerto da direção do evento e em ruas apinhadas de gente era possível a cada um encontrar o seu nicho predileto nessa “selva” cultural.

Não foi diferente no Palco do Rock em que tivemos ali representadas várias vertentes do gênero, desde o rock progressivo dos anos 70 até o thrash metal e novamente houve um acerto dos organizadores em deslocar as apresentações para a Praça da República. Os shows ganharam em beleza, com o palco emoldurado de um lado pela antiga escola Caetano de Campos e do outro pelas árvores da praça e ganharam em conforto pela amplitude do local.

Veja aqui as fotos do evento - parte 01
(por Giu Furlan)
Veja aqui as fotos do evento - parte 02 (por adriana Camargo)

Pela extensão da festa foi possível assistir somente alguns grupos e o primeiro deles, na noite de sábado (26), embora eu tenha chegado quase ao final, foi “O Terço”. A tempo de ouvir as duas últimas canções (uma delas apenas à distância), mas extremamente representativas: “Criaturas da Noite” e “Hey Amigo” foi enorme a emoção de ver Flavio Venturini nos teclados, Cláudio Venturini na guitarra e vocal, Sérgio Magrão no baixo e Sérgio Hinds, este último denotando extremo amor por sua arte, mesmo com o braço imobilizado pelo gesso impedindo a flexão do cotovelo, ainda assim empunhou com paixão a sua guitarra.

Seguiu-se o “Terreno Baldio” com a seguinte formação: João Carlos Kurk (vocal), Mozart Mello (guitarra), Ronaldo Lazzarini (teclados), Renato Muniz (baixo), Edson Guilardi (bateria), Cassio Poleto (violino), num show maravilhoso do mais puro e sofisticado rock progressivo, que superou todas as expectativas. Os veteranos mostraram enorme entrosamento e executaram alguns duelos entre teclado, violino e guitarra simplesmente arrebatadores em canções como “Este é o lugar”, “Água que Corre”, “Aqueloo”, “Pássaro Azul” e “Grite”, entre outras.

Na seqüência veio a “Casa das Máquinas” com Netinho na bateria, seu irmão Marinho Thomaz na segunda bateria, Mario Testoni nos teclados, no baixo e vocal Andria Busic (Dr. Sin) e nas guitarras Faíska e Sandro Haick (filho de Netinho). O show foi empolgante, levantou a galera e embora Andria tenha errado algumas letras, isso não comprometeu o resultado final. Dentre as músicas apresentadas estiveram alguns clássicos como “Essa é a Vida”, “Lar de Maravilhas”, “Doutor Medo”, “Vou Morar no Ar” e “Casa de Rock”.

Pude conferir em seguida a banda de heavy metal da década de 80, Harppia com o fundador, o baterista Tibério e que se apresentou com várias formações, inclusive com a participação sempre especial de Percy Weiss, e o encerramento se deu com a formação original: Jack Santiago no vocal, Hélcio Aguirra na guitarra, Tibério na bateria, Ricardo Ravache no baixo e entre outras canções foram interpretadas “Voz da Consciência”, “A Ferro e Fogo”, “Asas Cortadas” e “Salém (A Cidade das Bruxas)” que levantou o público.

Aproximadamente à 1h00 entra em cena Paul Di’Anno o eterno ex-vocalista do Iron Maiden tecendo elogios à cidade de São Paulo e o público parecia ter se multiplicado, inclusive com pessoas sobre as árvores e um clima de empurra-empurra e aperto diante das grades. Acompanhado por quatro músicos brasileiros relembrou músicas do álbum Killers do Iron, inclusive com a balada “Remember Tomorrow”. O som dos instrumentos estava bastante “embolado” e mesmo todo o peso empregado pelo vocalista deixou entrever que sua capacidade vocal não é mais a mesma de outros tempos.

Resolvi então mudar um pouco de ares e fui conferir o show do “O Som Nosso de Cada Dia” no Teatro Municipal para continuar na seara do progressivo e não me arrependi.
Teatro lotado e no palco Pedro Baldanza (baixo e vocais) e Manito (teclados, sax e flauta transversal), dois remanescentes da formação original acompanhados por Edson Guilardi (bateria), Fernando Macabro (teclado), Marcelo Schevano (guitarra e flauta transversal) e por Thiago Furlan e Jorge Canti (backing vocals). Apresentaram seu primeiro e mais famoso disco, "Snegs" que é considerado um dos clássicos do progressivo brasileiro dos anos 70. A qualidade dos músicos, a garra e a visível alegria de todos durante a apresentação teve retribuição à altura com o enorme envolvimento da platéia cantando junto e aplaudindo vivamente cada canção, numa performance emocionante.

Faço uma pausa justa para um lanche e um café e volto ao interior do teatro às 6h00 da manhã, desta vez para apreciar Pepeu Gomes interpretando as canções de seu primeiro disco-solo “Geração do Som”. O mago brasileiro das guitarras foi acompanhado pelos irmãos Didi Gomes (baixo), Jorginho Gomes (bateria), Ricardo Marins (guitarra) e Repolho (percussão) e o que se viu foi uma aula de virtuosismo e competência capaz de rivalizar com os melhores instrumentistas internacionais.

Volto ao Palco do Rock e o início do domingo já com um sol forte em plena manhã trazia a banda de metal Vodu com Sérgio Facci (bateria), José Luis Gemignani (guitarra), Daniel Lima (baixo) e Chris Miyai (vocal), todos mostrando ótimo entrosamento. Pena que o público, talvez remanescente de toda uma noitada de espetáculos desse mostras de cansaço, excetuando-se os mais próximos à grade, que pularam e cantaram acompanhando o grupo em vários momentos. O set list trouxe desde músicas próprias como a inédita Neurotic Knigthmares, ou ainda Nuclear Delirium, Let me live e Final Conflict (esta com a participação de André "Pomba" Cagni, o baixista original), até covers como Aces High e Hallowed Be Thy Name (Iron Maiden).

Depois de 14 horas quase ininterruptas assistindo a uma programação tão rica, o corpo dava sinais de cansaço e resolvi que era hora de partir, mas com a certeza de que num evento como esse, onde tudo é superlativo, a emoção também foi e pelo menos por um dia,
a cidade de fato, pertenceu aos seus cidadãos.



Veja mais


   Veja aqui como foi o segundo dia da Virada Cultural 2008
Veja aqui as fotos do evento - parte 01 (por Giu Furlan)
Veja aqui as fotos do evento - parte 02 (por adriana Camargo)



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