A
população paulistana sempre envolta por uma sensação
claustrofóbica e de medo que sua cidade impõe, pelo
menos uma vez por ano pode usufruir uma fantasia de amplitude
e liberdade que só um evento como a Virada Cultural é
capaz de propiciar. Poder ir e vir livremente sem grandes apreensões
(a segurança estava bem reforçada), olhar com calma
e vagar a fachada dos prédios, ocupar assentos em teatros
gratuitamente e deparar-se com diferentes formas de arte num mesmo
dia é um presente nada desprezível, mesmo que fugaz.
Além disso, a aposta na diversidade é, sem dúvida,
um acerto da direção do evento e em ruas apinhadas
de gente era possível a cada um encontrar o seu nicho predileto
nessa “selva” cultural.
Não
foi diferente no Palco do Rock em que tivemos ali representadas
várias vertentes do gênero, desde o rock progressivo
dos anos 70 até o thrash metal e novamente houve um acerto
dos organizadores em deslocar as apresentações para
a Praça da República. Os shows ganharam em beleza,
com o palco emoldurado de um lado pela antiga escola Caetano de
Campos e do outro pelas árvores da praça e ganharam
em conforto pela amplitude do local.
(por Giu Furlan)
(por adriana Camargo)
Pela
extensão da festa foi possível assistir somente
alguns grupos e o primeiro deles, na noite de sábado (26),
embora eu tenha chegado quase ao final, foi “O Terço”.
A tempo de ouvir as duas últimas canções
(uma delas apenas à distância), mas extremamente
representativas: “Criaturas da Noite” e “Hey
Amigo” foi enorme a emoção de ver Flavio Venturini
nos teclados, Cláudio Venturini na guitarra e vocal, Sérgio
Magrão no baixo e Sérgio Hinds, este último
denotando extremo amor por sua arte, mesmo com o braço
imobilizado pelo gesso impedindo a flexão do cotovelo,
ainda assim empunhou com paixão a sua guitarra.
Seguiu-se
o “Terreno Baldio” com a seguinte formação:
João Carlos Kurk (vocal), Mozart Mello (guitarra), Ronaldo
Lazzarini (teclados), Renato Muniz (baixo), Edson Guilardi (bateria),
Cassio Poleto (violino), num show maravilhoso do mais puro e sofisticado
rock progressivo, que superou todas as expectativas. Os veteranos
mostraram enorme entrosamento e executaram alguns duelos entre
teclado, violino e guitarra simplesmente arrebatadores em canções
como “Este é o lugar”, “Água que
Corre”, “Aqueloo”, “Pássaro Azul”
e “Grite”, entre outras.
Na
seqüência veio a “Casa das Máquinas”
com Netinho na bateria, seu irmão Marinho Thomaz na segunda
bateria, Mario Testoni nos teclados, no baixo e vocal Andria Busic
(Dr. Sin) e nas guitarras Faíska e Sandro Haick (filho
de Netinho). O show foi empolgante, levantou a galera e embora
Andria tenha errado algumas letras, isso não comprometeu
o resultado final. Dentre as músicas apresentadas estiveram
alguns clássicos como “Essa é a Vida”,
“Lar de Maravilhas”, “Doutor Medo”, “Vou
Morar no Ar” e “Casa de Rock”.
Pude
conferir em seguida a banda de heavy metal da década de
80, Harppia com o fundador, o baterista Tibério e que se
apresentou com várias formações, inclusive
com a participação sempre especial de Percy Weiss,
e o encerramento se deu com a formação original:
Jack Santiago no vocal, Hélcio Aguirra na guitarra, Tibério
na bateria, Ricardo Ravache no baixo e entre outras canções
foram interpretadas “Voz da Consciência”, “A
Ferro e Fogo”, “Asas Cortadas” e “Salém
(A Cidade das Bruxas)” que levantou o público.
Aproximadamente
à 1h00 entra em cena Paul Di’Anno o eterno ex-vocalista
do Iron Maiden tecendo elogios à cidade de São Paulo
e o público parecia ter se multiplicado, inclusive com
pessoas sobre as árvores e um clima de empurra-empurra
e aperto diante das grades. Acompanhado por quatro músicos
brasileiros relembrou músicas do álbum Killers do
Iron, inclusive com a balada “Remember Tomorrow”.
O som dos instrumentos estava bastante “embolado”
e mesmo todo o peso empregado pelo vocalista deixou entrever que
sua capacidade vocal não é mais a mesma de outros
tempos.
Resolvi
então mudar um pouco de ares e fui conferir o show do “O
Som Nosso de Cada Dia” no Teatro Municipal para continuar
na seara do progressivo e não me arrependi.
Teatro lotado e no palco Pedro Baldanza (baixo e vocais) e Manito
(teclados, sax e flauta transversal), dois remanescentes da formação
original acompanhados por Edson Guilardi (bateria), Fernando Macabro
(teclado), Marcelo Schevano (guitarra e flauta transversal) e
por Thiago Furlan e Jorge Canti (backing vocals). Apresentaram
seu primeiro e mais famoso disco, "Snegs" que é
considerado um dos clássicos do progressivo brasileiro
dos anos 70. A qualidade dos músicos, a garra e a visível
alegria de todos durante a apresentação teve retribuição
à altura com o enorme envolvimento da platéia cantando
junto e aplaudindo vivamente cada canção, numa performance
emocionante.
Faço
uma pausa justa para um lanche e um café e volto ao interior
do teatro às 6h00 da manhã, desta vez para apreciar
Pepeu Gomes interpretando as canções de seu primeiro
disco-solo “Geração do Som”. O mago
brasileiro das guitarras foi acompanhado pelos irmãos Didi
Gomes (baixo), Jorginho Gomes (bateria), Ricardo Marins (guitarra)
e Repolho (percussão) e o que se viu foi uma aula de virtuosismo
e competência capaz de rivalizar com os melhores instrumentistas
internacionais.
Volto
ao Palco do Rock e o início do domingo já com um
sol forte em plena manhã trazia a banda de metal Vodu com
Sérgio Facci (bateria), José Luis Gemignani (guitarra),
Daniel Lima (baixo) e Chris Miyai (vocal), todos mostrando ótimo
entrosamento. Pena que o público, talvez remanescente de
toda uma noitada de espetáculos desse mostras de cansaço,
excetuando-se os mais próximos à grade, que pularam
e cantaram acompanhando o grupo em vários momentos. O set
list trouxe desde músicas próprias como a inédita
Neurotic Knigthmares, ou ainda Nuclear Delirium, Let me live e
Final Conflict (esta com a participação de André
"Pomba" Cagni, o baixista original), até covers
como Aces High e Hallowed Be Thy Name (Iron Maiden).
Depois
de 14 horas quase ininterruptas assistindo a uma programação
tão rica, o corpo dava sinais de cansaço e resolvi
que era hora de partir, mas com a certeza de que num evento como
esse, onde tudo é superlativo, a emoção também
foi e pelo menos por um dia,
a cidade de fato, pertenceu aos seus cidadãos. |