
Embora seja forçoso admitir que ainda não encontrou
seu lugar entre as Sete Mais, não restam dúvidas
de que o insulto é, ou bem pode ser, uma arte. E das
mais requintadas, como não cansa de nos relembrar a admirável
obra poética de Gregório de Matos Guerra, o popular
“Boca do Inferno”, que manchou incontáveis
reputações na Bahia do século 17. O insulto
é a arte de elogiar, só que às avessas.
Funciona mais ou menos assim: você escolhe seu objeto
de desejo, seja ele uma pessoa, uma instituição
ou um país, observa e seleciona bem suas características
mais degradantes e… cai de boca, sem dó (até
porque ainda te restam o ré, o mi, o fá, o sol,
o lá, o si e, vá lá, o outro dó…).
É isso o que o grupo carioca Matanza vem
fazendo com devoção desde o vulcânico início
de sua carreira, nos idos de 2001: insultando, ofendendo, difamando,
boquejando, afrontando, desacatando, descompondo, esculhambando,
ultrajando, acometendo, abalroando, vituperando e xingando pessoas,
instituições e países. Ou, quem sabe, um
país específico, aquele que vive deitado eternamente
em um esplêndido mar de lama.
Ao contrário do velho Gregório de Matos, que sequer
dispunha de uma lira para versejar enquanto Salvador ardia sob
as chamas de seus impropérios, o Matanza conta com os inestimáveis
préstimos do rock e da eletricidade, materizalizados na
guitarra alucinada de Donida e na pulsação nervosa
do baixo de China, às quais se somam a tronituante bateria
de Fausto e a furiosa voz irlandesa de Jimmy, o irado.
Filho dileto do underground carioca, a praia do Matanza nunca
foi a mesma da garota de Ipanema. Ao misturar Johnny Cash com
hardcore, o grupo se tornou o pai-fundador de um novo estilo:
o countrycore - que fez a banda virar uma espécie de Johnny
Crash. A definição faz sentido: a dor e a urgência
da vida e da obra do grande Cash ressoam no subtexto e no super
som do Matanza como em uma ode ao country white trash. Também
há referências ao que os Raimundos fizeram de melhor
no ritmo veloz e nas letras desbocadas dessa quadrilha de celerados
que tomou de assalto a cena do rock brazuca (que, às vezes,
ainda parece metida em bermuda e óculos, só faltam
os suspensórios).
A Arte do Insulto é o quarto disco do Matanza. Produzido
por Rafael Ramos com a dose certa de esmero e sujeira, o álbum
reúne 13 músicas. São petardos desaforados
desfilando em sequência vertiginosa e cujos próprios
títulos falam por si: “Clube de Canalhas”,
“O Chamado do Bar”, “Sabendo que posso Morrer”,
“Meio Psicopata”, “Ressaca sem Fim”, “Tempo
Ruim”… Uma beberragem sonora só para os fortes.
Um barato que o disco esteja saindo em cima das eleições:
tudo o que a gente tem vontade de dizer para essa gente em alto
e mau som está dito na Arte do Insulto!
O Matanza bem poderia dizer o que diz de maneira educada - só
que prefere latir. É que os meninos adoram matar cachorro
a grito. Portanto, morte aos cães que ladram e roubam enquanto
a caravana do Matanza passa levando os medíocres pro último
drinque no inferno.
Mais Informações:
Carlos Ribeiro
Assessoria de Comunicação/Produção
Casa da Zorra
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Érica
Produção Matanza
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