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Hellion Records
 Matéria

03/09/2007
Show de virtuosismo e simpatia do Living Colour em São Paulo
Texto: Giu Furlan
Fotos: Adriana Camargo
 
Ao chegar à Via Funchal no último dia 30 de agosto me deparei com uma situação inusitada que não vejo desde que venho fazendo coberturas de shows: nenhuma fila na porta e um pequeno contingente de pessoas nos arredores preparavam-se para adentrar a casa. No recinto, poucas pessoas perto da grade e algumas tantas espalhadas em pequenas rodas de conversas animadas.

Fiquei um pouco preocupada, pois afinal, era o show do Living Colour, banda com enorme reputação, todos músicos de primeira grandeza: Corey Glover (vocais), Vernon Reid (guitarra), Doug Wimbish (baixo) e Will Calhoun (bateria). Está certo que o último Cd lançado por eles foi em 2003 (Collideoscope), portanto há um bom tempo, mas a categoria dos músicos está acima desse dado.

Os temores desapareceram quando por volta das 22h20, aproximadamente duas mil pessoas, um bom público, portanto, recebeu o grupo com muitos aplausos. Eles, com o maior despojamento cumprimentaram a todos e começaram a tocar num palco simples, sem nenhum adereço e nenhum efeito pirotécnico.

VEJA AQUI AS FOTOS DO SHOW

Na primeira música, problemas técnicos, e o microfone de Corey não funcionou. Tentaram um recomeço com "Desperate People", mas Will parece ter vacilado entrando em compasso mais rápido. Alguma conversa entre eles e retomaram com "Type" (do disco “Time’s Up”), mas de modo estranho, meio devagar, parecendo cansaço. Nada mais do que um susto e logo a coisa deslanchou, com direito até a um reggae no meio da canção.

Em seguida o primeiro momento “virtuose” da noite com um solo absurdo de Vernon introduzindo “Middle Man” (do Cd “Vivid”, o primeiro deles). A terceira canção começa com “slaps” maravilhosos de Doug e com seu baixo produzindo sons dignos de qualquer música progressiva para entregar de bandeja a música “Wall” (do disco “Stain”) da qual o baixista faz também os backings vocals.

Super performáticos, principalmente Corey e Doug (já Vernon é bem mais contido e praticamente não sai do seu canto com sua guitarra), não param um minuto no palco, indo de um lado para outro e interpretando cada nota com interessantes expressões corporais.

A apresentação cresce em entusiasmo à medida que o repertório avança e vale destacar a belíssima e longa introdução de Corey para “Open Letter (To A Landlord)”, num vocal primoroso e sensível, como se de repente, Mahalia Jackson tivesse “baixado” no palco. Interpretação quase-lamento, característica do melhor estilo “gospel”.

"Sacred Ground" também foi um momento especial com Calhoun demonstrando toda a sua versatilidade na bateria, numa agressividade e peso impressionantes. Vernon, extremamente técnico e veloz em todas as canções, brilhou visivelmente num começo quase country-blues para "Memories Can't Wait”.

Chega a hora de chacoalhar o esqueleto e com uma introdução de “Papa Was A Rollin’ Stones”, um hit dos “The Temptation” (da década de 70) engatam a conhecida “Glamour Boys”.

A música “Go Away” foi dedicada a Hilly Kristal, dono e fundador do clube CBGB, local em que a banda começou a carreira e onde um membro ilustre da platéia do clube nova-iorquino, Mick Jagger, fisgado pelo som do grupo, se incumbiu de produzir para eles a primeira demo.

Houve também uma música inédita composta e cantada por Doug (com backings de Corey) e que deve aparecer no próximo Cd.Começando funkeada e tornando-se pesada posteriormente, tem tudo para ser um belo hit e traz um interessante trabalho de slide de Vernon.

Em bom português, Corey grita “Elvis está morto” (expressão que ele aprendeu na coletiva de imprensa realizada um dia antes do show e que parece ter treinado bastante) e ao cantar “Elvis Is Dead”, enxerta em tom de sátira, um trecho de “Can’t Help Falling In Love” conhecida na voz do próprio Elvis.

Novo solo de batera, com todos os músicos deixando o palco para que Will pudesse brilhar novamente e que habilidade e resistência! Foram quase dez minutos de som enfurecido, uma aula e tanto para os bateristas presentes (talvez longa demais pra quem não seja do ramo).

Mais algumas canções, o público extasiado com tanta técnica e carisma e aproxima-se o final do espetáculo com o hit mais famoso do grupo, "Cult of Personality", instante em que Corey entrega-se aos braços da platéia para delírio dos fãs.

Uma saída rápida dos músicos saudando a galera com apertos de mão e a voltam para o bis com versões matadoras de "Sunshine of Your Love" do Cream e "Should I Stay or Should I Go?" do The Clash.

Para terminar Corey pega o microfone e grita:- “What’s your favourite color baby?”. E o público responde imensamente agradecido: “Living Colour!”.
Os mestres do groove deram seu recado com muita competência e simpatia.


ENTREVISTA
   Leia também: Entrevista com a banda Living Colour




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