
Ao
chegar à Via Funchal no último dia 30 de agosto
me deparei com uma situação inusitada que não
vejo desde que venho fazendo coberturas de shows: nenhuma fila
na porta e um pequeno contingente de pessoas nos arredores preparavam-se
para adentrar a casa. No recinto, poucas pessoas perto da grade
e algumas tantas espalhadas em pequenas rodas de conversas animadas.
Fiquei um pouco preocupada, pois afinal, era o show do Living
Colour, banda com enorme reputação, todos músicos
de primeira grandeza: Corey Glover (vocais), Vernon Reid (guitarra),
Doug Wimbish (baixo) e Will Calhoun (bateria). Está certo
que o último Cd lançado por eles foi em 2003 (Collideoscope),
portanto há um bom tempo, mas a categoria dos músicos
está acima desse dado.
Os temores desapareceram quando por volta das 22h20, aproximadamente
duas mil pessoas, um bom público, portanto, recebeu o grupo
com muitos aplausos. Eles, com o maior despojamento cumprimentaram
a todos e começaram a tocar num palco simples, sem nenhum
adereço e nenhum efeito pirotécnico.
Na primeira música, problemas técnicos, e o microfone
de Corey não funcionou. Tentaram um recomeço com
"Desperate People", mas Will parece ter vacilado entrando
em compasso mais rápido. Alguma conversa entre eles e retomaram
com "Type" (do disco “Time’s Up”),
mas de modo estranho, meio devagar, parecendo cansaço.
Nada mais do que um susto e logo a coisa deslanchou, com direito
até a um reggae no meio da canção.
Em seguida o primeiro momento “virtuose” da noite
com um solo absurdo de Vernon introduzindo “Middle Man”
(do Cd “Vivid”, o primeiro deles). A terceira canção
começa com “slaps” maravilhosos de Doug e com
seu baixo produzindo sons dignos de qualquer música progressiva
para entregar de bandeja a música “Wall” (do
disco “Stain”) da qual o baixista faz também
os backings vocals.
Super performáticos, principalmente Corey e Doug (já
Vernon é bem mais contido e praticamente não sai
do seu canto com sua guitarra), não param um minuto no
palco, indo de um lado para outro e interpretando cada nota com
interessantes expressões corporais.
A apresentação cresce em entusiasmo à medida
que o repertório avança e vale destacar a belíssima
e longa introdução de Corey para “Open Letter
(To A Landlord)”, num vocal primoroso e sensível,
como se de repente, Mahalia Jackson tivesse “baixado”
no palco. Interpretação quase-lamento, característica
do melhor estilo “gospel”.
"Sacred Ground" também foi um momento especial
com Calhoun demonstrando toda a sua versatilidade na bateria,
numa agressividade e peso impressionantes. Vernon, extremamente
técnico e veloz em todas as canções, brilhou
visivelmente num começo quase country-blues para "Memories
Can't Wait”.
Chega a hora de chacoalhar o esqueleto e com uma introdução
de “Papa Was A Rollin’ Stones”, um hit dos “The
Temptation” (da década de 70) engatam a conhecida
“Glamour Boys”.
A música “Go Away” foi dedicada a Hilly Kristal,
dono e fundador do clube CBGB, local em que a banda começou
a carreira e onde um membro ilustre da platéia do clube
nova-iorquino, Mick Jagger, fisgado pelo som do grupo, se incumbiu
de produzir para eles a primeira demo.
Houve também uma música inédita composta
e cantada por Doug (com backings de Corey) e que deve aparecer
no próximo Cd.Começando funkeada e tornando-se pesada
posteriormente, tem tudo para ser um belo hit e traz um interessante
trabalho de slide de Vernon.
Em bom português, Corey grita “Elvis
está morto” (expressão que ele aprendeu na
coletiva de imprensa realizada um dia antes do show e que parece
ter treinado bastante) e ao cantar “Elvis Is Dead”,
enxerta em tom de sátira, um trecho de “Can’t
Help Falling In Love” conhecida na voz do próprio
Elvis.
Novo solo de batera, com todos os músicos deixando o palco
para que Will pudesse brilhar novamente e que habilidade e resistência!
Foram quase dez minutos de som enfurecido, uma aula e tanto para
os bateristas presentes (talvez longa demais pra quem não
seja do ramo).
Mais algumas canções, o público extasiado
com tanta técnica e carisma e aproxima-se o final do espetáculo
com o hit mais famoso do grupo, "Cult of Personality",
instante em que Corey entrega-se aos braços da platéia
para delírio dos fãs.
Uma saída rápida dos músicos saudando a galera
com apertos de mão e a voltam para o bis com versões
matadoras de "Sunshine of Your Love" do Cream e "Should
I Stay or Should I Go?" do The Clash.
Para terminar Corey pega o microfone e grita:- “What’s
your favourite color baby?”. E o público responde
imensamente agradecido: “Living Colour!”.
Os mestres do groove deram seu recado com muita competência
e simpatia.