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 Matéria

janeiro/2008
Saudosas diversões eletrônicas de Arrigo
Por: Ilton Godoy (iltongod@ig.com.br)
 
Nos anos 80, uma voz rouca, sussurrante, implorava "Só você não viu/ Mas ela entrou, entrou com tudo/ Naquele antro/ Naquele antro sujo/ Você não imaginou/ Mas eu vi/ No luminoso estava escrito/ "Diversões Eletrônicas".

Aquele senhor de camisa de cores fortes, cabelo comprido bagunçado, sentado em frente ao um teclado foi um dos ícones da minha adolescência. Mais pela esquisitice do seu som (e posso garantir que até hoje tenho uma predileção por Lados B, desde de que fora de alguma idolatria despropositada).

Este senhor se chama Arrigo Barnabé (foto), e ele abriu seu show com um dos seus clássicos "Diversões eletrônicas", com suas frases repetidas como um gaguejar de idéias, estrutura de HQ e melodia sem sentido,a tal dodecafonia (para quem é enxurrado diariamente por musiquinhas de FMs e MTVs).

Arrigo tocou acompanhado pela Patife Band, banda de seu irmão baterista-vocalista Paulo Barnabé. A Patife nasceu no país errado, porque, se eles fossem dos EUA, seriam famosos por aqui, fariam shows e teriam clipes rolando nas TVs jovens. Como são paulistas, são renegados a circuitos de casas de cultura e universidades.

A Patife não fica devendo nada aos pavements da vida. Capazes de um feito inédito, eles conseguiram juntar Fernando Pessoa e o peso da indignação do rock: musicaram o "Poema em Linha Reta", descobriram uma pérola punk escrita há quase 100 anos, dos versos "Nunca conheci quem tivesse levado porrada/ Meus amigos são campeões em tudo/ E eu/ tantas vezes reles/ Tantas vezes porco/ Porco/ Porco.", versos mais contundentes que toda a obra do Ratos de Porão, e que neste show teve Arrigo vociferando a letra com sua voz rouca, enquanto a Patife atacava no punk.

Além de Paulo na bateria, a banda é o guitarrista Emerson Villani e a participação especial do tecladista Paulo Braga, companheiro de Arrigo e que, neste show, fez a ponte entre os irmãos. Paulo, aliás, continuava no palco quando Arrigo entrou, com ele fez temas instrumentais e tocou a melodramática "Façanhas" com a dupla ensaiando um diálogo de bêbados que oscilava entre o engraçado e o patético. Arrigo, lembrando Jorge Mautner que toca Lamartine Babo em seus shows, enveredou pelos clássicos da dor-de-cotovelo e emendou duas de Lupi, "Esses moços" e "Ela disse-me assim", ambas à capela e com corinho do público.

Arrigo sabe o que é essencial na nossa música. "Cidade oculta" remete ao filme homônimo e encanta com sua poesia dura, áspera e encantadora. O espetáculo termina com o clássico "Clara Crocodilo", e Arrigo sussurrando raivoso 'Clara Crocodilo fugiu/ Clara Crocodilo escapuliu/ Vê se tem vergonha na cara/ E ajuda Clara seu canalha/ Olha o holofote no olho/ Sorte, você não passa de um repolho".

Tudo tão atual, som e poesia, que parece que foi criada este ano. Pena que as cabeças da era cibernética ainda escutam coisas que são do tempo da minha vó, ou alguém acha que as FMs trazem algum novidade?

Tudo igual a trinta anos atrás. Ficou apenas uma questão: "Orgasmo total" é boa, mas, se é pra lembrar da investida pop de Arrigo, nada melhor que a grudenta "Uga uga".





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