Nos anos 80, uma voz rouca,
sussurrante, implorava
"Só você não
viu/ Mas ela entrou, entrou com tudo/ Naquele antro/ Naquele antro
sujo/ Você não imaginou/ Mas eu vi/ No luminoso estava
escrito/ "Diversões Eletrônicas".
Aquele senhor de camisa de cores fortes, cabelo comprido bagunçado,
sentado em frente ao um teclado foi um dos ícones da minha
adolescência. Mais pela esquisitice do seu som (e posso
garantir que até hoje tenho uma predileção
por Lados B, desde de que fora de alguma idolatria despropositada).

Este
senhor se chama
Arrigo Barnabé (foto),
e ele abriu seu show com um dos seus clássicos
"Diversões
eletrônicas", com suas frases repetidas como um
gaguejar de idéias, estrutura de HQ e melodia sem sentido,a
tal dodecafonia (para quem é enxurrado diariamente por
musiquinhas de FMs e MTVs).
Arrigo tocou acompanhado pela
Patife Band, banda
de seu irmão baterista-vocalista Paulo Barnabé.
A Patife nasceu no país errado, porque, se eles fossem
dos EUA, seriam famosos por aqui, fariam shows e teriam clipes
rolando nas TVs jovens. Como são paulistas, são
renegados a circuitos de casas de cultura e universidades.
A Patife não fica devendo nada aos pavements da vida. Capazes
de um feito inédito, eles conseguiram juntar Fernando Pessoa
e o peso da indignação do rock: musicaram o
"Poema
em Linha Reta", descobriram uma pérola punk escrita
há quase 100 anos, dos versos
"Nunca conheci quem
tivesse levado porrada/ Meus amigos são campeões
em tudo/ E eu/ tantas vezes reles/ Tantas vezes porco/ Porco/
Porco.", versos mais contundentes que toda a obra do
Ratos de Porão, e que neste show teve Arrigo vociferando
a letra com sua voz rouca, enquanto a Patife atacava no punk.
Além de Paulo na bateria, a banda é o guitarrista
Emerson Villani e a participação especial do tecladista
Paulo Braga, companheiro de Arrigo e que, neste show, fez a ponte
entre os irmãos. Paulo, aliás, continuava no palco
quando Arrigo entrou, com ele fez temas instrumentais e tocou
a melodramática
"Façanhas" com
a dupla ensaiando um diálogo de bêbados que oscilava
entre o engraçado e o patético. Arrigo, lembrando
Jorge Mautner que toca Lamartine Babo em seus shows, enveredou
pelos clássicos da dor-de-cotovelo e emendou duas de Lupi,
"Esses moços" e
"Ela disse-me
assim", ambas à capela e com corinho do público.

Arrigo
sabe o que é essencial na nossa música.
"Cidade
oculta" remete ao filme homônimo e encanta com
sua poesia dura, áspera e encantadora. O espetáculo
termina com o clássico
"Clara Crocodilo",
e Arrigo sussurrando raivoso 'Clara Crocodilo fugiu/ Clara Crocodilo
escapuliu/ Vê se tem vergonha na cara/ E ajuda Clara seu
canalha/ Olha o holofote no olho/ Sorte, você não
passa de um repolho".
Tudo tão atual, som e poesia, que parece que foi criada
este ano. Pena que as cabeças da era cibernética
ainda escutam coisas que são do tempo da minha vó,
ou alguém acha que as FMs trazem algum novidade?
Tudo igual a trinta anos atrás. Ficou apenas uma questão:
"Orgasmo total" é boa, mas, se é
pra lembrar da investida pop de Arrigo, nada melhor que a grudenta
"Uga uga".