Casa
absolutamente cheia, mesas na pista, platéia de diferentes
faixas etárias e provavelmente, a última chance de
ver e ouvir, ao vivo, uma lenda, um mestre.
Uma certa Lucille (Gibson) em pé, no centro do palco, sendo
fotografada de todos os ângulos como uma grande estrela e
às 21h51 tem início a segunda apresentação
da turnê (The Farewell World Tour) de despedida do rei do
blues B.B. King (ou Blues Boy King, que é seu nome artístico
completo), que passará a tocar apenas nos Estados Unidos.
O som começa grandioso, com a B.B. King Orchestra se apresentando
(4 metais, bateria, baixo e teclado), time de primeira o desses
senhores de certa idade...
E eis que anunciam o nome mágico e adentra ao palco ovacionado
em pé, pelo público aquele que foi influência
para um grupo enorme de guitarristas.
Sentado ao centro (e assim ficaria durante todo o show) esse senhor
de 81 anos fala de sua alegria em estar no Brasil, onde, segundo
ele, encontra-se ótima comida, excelentes cavalheiros mas
principalmente belíssimas mulheres e essa seria a tônica
da noite: um show repleto de piadas engraçadas e referências
cheias de elogios às mulheres em geral.
Sempre brincando, justifica o fato de tocar sentado, pois "com
sua idade, as pernas estão ruins, as costas estão
ruins e a cabeça também". Mas não foi
isso o que se viu e sim um homem cujo som da guitarra Lucille
é atemporal, capaz de extrair dela gemidos, canto e lamento
e de emocionar, numa intimidade com o instrumento que só
o grande amor pela música pode trazer. Um cantor cuja voz
soa tão jovial e potente quanto no início de carreira.
Cantando maravilhas como "Rock Me, Baby", "The
Thrill Is Gone", "When Love Comes To Town" , "Ain't
That Just Like a Woman", entre outras, enquanto sacudia-se
na cadeira, levava o público a fazer coro com ele em várias
canções. Sim, ele é o "homem do blues"
por natureza.
O show termina às 23h30, sem bis, mas num clima festivo
e apoteótico com "When the Saints Go Marchin' In,
e a despedida ganha ares de celebração.
Um misto de respeito, reconhecimento e êxtase são
as sensações que ficam na alma quando o show termina,
e uma vontade enorme de poder abraçar esse velho menino
que tanto fez pelo blues, para agradecer por uma noite assim inesquecível. |