Estranho
e inusitado chegar ao Credicard Hall nesta sexta, 16 de maio,
e encontrar os estacionamentos com lugares sobrando, nenhuma fila,
nenhum alvoroço. O grupo norte-americano Queensrÿche
faria ali a sua apresentação e para um grupo tão
prestigioso, com quase 30 anos de carreira, tido como um dos precursores
do metal progressivo, essa pouca afluência de público
não deixava de ser surpreendente. Podemos talvez creditar
esse fato à quantidade avassaladora de shows na capital,
em curto espaço de tempo, combalindo o bolso dos fãs
menos privilegiados.
Queensrÿche
entrou em cena por volta das 22h15, mandando de cara a incrível
“Best I Can”, do álbum “Empire”
de 1990, e a casa até que não estava tão
vazia como eu supunha; pouco mais de 3000 pessoas - público
não tão grande, mas bastante expressivo se comparado
com a tour em outros estados. Um palco despojado, apenas com um
pano preto ao fundo trazendo o logo do grupo, era o cenário,
mas pra que mais? O som que eles apresentam já é
sofisticado o suficiente sem precisar de recursos cênicos
adicionais.
O quinteto
é formado pelo líder e vocalista Geoff Tate, por
Scott Rockenfield na bateria, Eddie Jackson no baixo e ainda Michael
Wilton e Mike Stone nas guitarras. O repertório trouxe
um apanhado geral da carreira e a banda emendou na seqüência
“NM 156” e “Screaming in Digital”, mais
antigas. Seguiram-se "Hostage" e "The Hands",
duas canções do CD "Operation Mindcrime II"
de 2006 e a balada “Bridge”, do álbum “Promised
Land”.
O som
estava impecável e os músicos, tocando com uma precisão
e técnicas irrepreensíveis, trouxeram em seguida
"The Killing Words", "Another Rainy Night (Without
You)", "Gonna Get Close to You" e "Walk in
the Shadows". Eu mal podia acreditar no que estava ouvindo,
pois não imaginava que pudessem reproduzir ao vivo a qualidade
sonora dos álbuns; mas eu diria que houve até superação.
Enorme parte disso deve-se a estrondosa qualidade vocal de Geoff
Tate: sua interpretação potente e única,
valorizando cada palavra e cada nota, num domínio de técnica
como poucas vezes presenciei, foi surpreendente e constituiu-se
num espetáculo à parte. A dramatização
e o visível sentimento colocado por ele em todas as canções
acrescentaram a elas um brilho todo especial.
Entre
as músicas, Tate discursava para a platéia num misto
de poesia e filosofia com sua voz forte e poderosa e em determinado
momento anunciou sua homenagem a um grupo que lhes teria servido
de influência: o Black Sabbath. Aos acordes iniciais de
“Neon Knights” o público responde com grande
empolgação. Vieram ainda "Last Time in Paris",
"Breaking the Silence" e "Anybody Listening?",
e nesta última, a colunista que vos escreve não
conseguiu conter as lágrimas, tamanha a emoção
por presenciar interpretação tão magistral.
Falando
sobre características da cidade de Seattle (onde o grupo
surgiu), Tate introduz o hit “Jet City Woman” (do
disco “Empire”) e com a belíssima "Eyes
Of a Stranger", termina a primeira parte do show e o quinteto
deixa o palco sob aplausos calorosos. O guitarrista Mike Stone,
após brevíssima pausa, voltou ao palco com um cavaquinho
elétrico e numa deferência especial ao público
brasileiro, interpretou trechos do “Hino Nacional Brasileiro”
e do famoso chorinho “Brasileirinho”.
Sem
grandes delongas, voltaram para o bis, e a sequência foi
avassaladora com “The Lady Wore Black”, “Empire”
e "Take Hold of the Flame”. E como não poderia
ser diferente, ficou reservada para o final a canção
que é marca registrada do grupo e que Tate apontou como
uma de suas preferidas: “Silent Lucidity”, cantada
numa só voz pelo público, emocionando até
as mais duras almas e fechando a noite em grande estilo.
Por
volta das 00h15, com a bandeira nacional em mãos, os componentes
se despedem deixando o palco, encerrando assim sua excursão
em terras brasileiras. Posso dizer, sem sombra de dúvida,
que dos inúmeros espetáculos a que tenho presenciado,
este se coloca num patamar de qualidade dificilmente suplantável.
Pena para quem não foi! Que noite inesquecível! |