A rave gótica do The Sisters of Mercy no Rio

Por Marcelo Vieira

Pioneiros do pós-punk revisitam obra curta porém vertiginosa na Cidade Maravilhosa

Foto: Gustavo Maiato

“It’s a small world and it smells bad”, canta Andrew Eldritch em “Vision Thing”, faixa título do terceiro e último álbum de estúdio do The Sisters of Mercy, lançado em 1990. Às 19h30 do último domingo (10), com a banda de abertura prestes a subir ao palco, o único ‘smell’ que se sentia no Vivo Rio era o de um possível fiasco dado o público presente que, além de disperso, não demonstrou a menor empolgação quando os curitibanos do The Secret Society deram a partida nos motores, apresentando sons de seu recém-lançado disco de estreia, Rites of Fire.

O som do trio é soturno e percussivo, com guitarras que remetem ao The Cult — a timbragem usada por Fabiano Cavassin é praticamente a mesma de Billy Duffy — e letras cruéis demais para os de espírito fraco e eruditas demais para os que possuem pouca bagagem, pois as referências a filmes e livros são constantes. Jogando ‘em casa’ — ao contrário de quando abriram para Dee Snider (Twisted Sister) na cidade de São Paulo em março passado —, fizeram um show muito, muito melhor. Sorte de quem prestou atenção.

Não demorou muito até que todas as luzes se apagassem. Nem o telão é mantido aceso. O pouco que ilumina o palco são feixes coloridos vindos de baixo para cima. A fumaça é uma constante. Eldritch caminha para lá e para cá com uma frieza calculada. Os passos parecem fruto de pequenos impulsos eletromagnéticos; um misto de Nosferatu com brinquedo de pilha fraca. Sua postura é tão grave quanto a voz, imitada por inúmeros cantores nas últimas ‘quatro-quase-cinco’ décadas.

Os guitarristas/backing vocals Ben Christo e Dylan Smith, ambos munidos de guitarras modelo Firebird brancas, em total contraste com a indumentária predominantemente preta, o ladeiam como guardas de escolta. Lá no fundo, visível somente graças aos dois MacBooks posicionados diante de si, Doktor Avalanche, o homem por trás dos samplings, completa o quarteto.

O caráter totalmente inorgânico do som — apenas guitarras e vocais são ‘ao vivo’, mas, mesmo assim, nem tanto — parecia não importar para a casa, agora já repleta de um público devidamente trajado e maquiado para a rave gótica da próxima uma hora e vinte minutos. Show curto em duração, mas comprido em músicas: foram dezenove, muitas delas, porém, ceifadas, entrelaçadas uma à outra em medleys, reduzidas basicamente às partes cantadas. “More”, a primeira do set, por exemplo, durou somente até o segundo refrão, indicando o padrão a ser seguido pelas dezoito seguintes.

Foto: Gustavo Maiato

Depois de muita dança em relativo silêncio, o público se fez ouvir tanto cantando junto em “Dominion/Mother Russia” e “Marian” — imagine só se o baixo fosse ao vivo! — quanto acompanhando a contagem nas palmas em “First and Last and Always”, que antecipou um interlúdio instrumental no qual Christo e Smith se alternaram em solos que, se básicos por um lado, eram precisos e certeiros por outro. Vale ressaltar que Andrew absolutamente não dirige a palavra em momento algum. Nem um ‘thank you’ sequer. Fora que deve ter fumado um maço de cigarro inteiro no decorrer do show. Trevoso.

O clima de balada sai de cena conforme um violão dá as caras em “Something Fast” e “I Was Wrong”, prenúncios de “Flood II”, cujo nome diz inundação, mas o som é a mais pura areia movediça. Despido dos óculos escuros, Christo é pura simpatia, piscadelas, coraçõezinhos. Lembra Lucas Lucco, sem bomba e sem tattoos. Joga a palheta no meio da escuridão. O paradeiro dela, ninguém sabe, ninguém viu.

O bis começa com “Lucretia My Reflection”, regravada até pelo saudoso Warrel Dane (Nevermore). Na sequência, “Vision Thing”, a trilha sonora do fim do mundo escrita em repúdio aos Estados Unidos do presidente Bush pai. É como ouvir o Rammstein do passado, pois muitas das bases do que hoje se entende como Industrial estão ali. “Temple of Love” e “This Corrosion”, com um ‘oooo’ acompanhando o fraseado de guitarra que é a espinha dorsal da canção, consistiram na cartada final. Canastra tinindo de tão limpa. Suando em bicas, refleti: “Quem disse que azul é a cor mais quente?”

SETLIST THE SISTERS OF MERCY

1 – More
2 – Ribbons
3 – Crash and Burn
4 – Doctor Jeep/ Detonation Boulevard
5 – No Time to Cry
6 – Alice
7 – Show Me
8 – Dominion/ Mother Russia
9 – Marian
10 – Better Reptile
11 – First and Last and Always
12 – Instrumental
13 – Something Fast
14 – I Was Wrong
15 – Flood II
BIS
16 – Lucretia My Reflection
17 – Vision Thing
18 – Temple of Love
19 – This Corrosion

Confira a galeria de fotos do show:

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