A (nem tão polêmica assim) arte da tatuagem

Por Isabele Miranda

Estudo do Sebrae identificou um crescimento de 24,1% no número de estúdios regularizados; índice apurado entre janeiro de 2016/2017

A cantora e artista plástica Juh Leidl – Foto: Reprodução/ Instagram

O tatuador paranaense Murilo Calixto conta que parou o curso de artes visuais e, incentivado por sua mãe, fez um curso com um renomado tatuador, pioneiro na área, na região de Maringá. Hoje, ele atende diariamente um número significativo de pessoas em seu estúdio, na cidade de Jandaia do Sul, e acredita que sua maior clientela esteja na faixa etária de 18 a 30 anos. Segundo ele, o conceito de body art já é muito bem aceito e dentro de 20 anos uma grande parte da população terá ao menos uma tatuagem.

“O que incomoda um pouco é o fato de algumas pessoas me questionarem como será quando eu for mais velho, por ter muitas tatuagens, a maioria feita por mim mesmo. Eu respondo que incomoda mais aos outros do que a mim, não terei problemas em me tornar uma pessoa mais velha e tatuada”, conta Murilo Calixto.

Conversamos com profissionais (tatuados) de diversas áreas para saber o que eles pensam a respeito do tema, o motivo pelo qual decidiram fazer suas tatuagens e também fatos curiosos relacionados às suas escolhas:


Juh Leidl, artista plástica, vocalista da banda Threesome e jurada do programa “Canta Comigo”, apresentado por Gugu Liberato na TV Record.

“Arte sempre foi minha vida, minha paixão, e a tatuagem faz parte desse universo de imagens. Então, passar algumas ideias da tela para a pele foi um processo quase que natural. Sempre que falava sobre tatuagem as pessoas colocavam aquelas dúvidas de que se eu me arrependesse teria que conviver com aquilo, que doía demais, ou que eu poderia enjoar rápido. Mas eu adorava ver pessoas tatuadas, achava lindo, e sempre foi algo que era absolutamente normal na minha cabeça, até porque meus ídolos da música, principalmente do rock, eram super tatuados. Assim não foi difícil me decidir a começar a fazer tattoos.
Todas as minhas tatuagens tem um significado para mim, e desde quando fiz a primeira me preocupei em colocar coisas com as quais eu me identificasse. Fiz minha primeira tatuagem grande no braço esquerdo, que é um leão. Na época não era muito comum mulheres com tatuagens grandes na região do bíceps e cheguei a ouvir de um amigo que eu deveria fazer nas costas ou coxas, pois uma grande no braço “era coisa de lésbica”.
Felizmente, sempre trabalhei e atuei a vida toda com arte, em agências de propaganda e design. Mesmo há algumas décadas, quando a tatuagem não era algo tão popularizado e ainda sofria o estigma de coisa de maluco, drogado, prostituta ou bandido, dentro do trabalho isso nunca foi visto como um problema, era a famosa frase “coisa de artista”. Tive apenas uma situação, trabalhando com o marketing, em uma reunião que eu iria receber junto ao cliente um grupo de japoneses. Sabendo como se dá a questão da tattoo na cultura do Japão, eu mesma decidi ir para a reunião com uma blusa de manga. Mas foi por um excesso de cuidado meu, já que na época ninguém me pediu para esconder as tattoos. Ou seja, posso dizer que na minha área de trabalho nunca me atrapalhou.
Fico muito feliz em ver a popularização dessa arte. No começo era algo muito do universo dos roqueiros, rappers ou presidiários, mas a medida em que artistas do pop começaram a aparecer na mídia tatuados, além de um mundo de reality shows de estúdios de tattoo, somado a moda hipster que abraçou todo esse lance, hoje temos cantores de todos os estilos, como o popular sertanejo ou mesmo ídolos de futebol, aparecendo com suas tatuagens, popularizando ainda mais a arte. Estamos começando a criar uma cultura da tattoo. O que é muito bom, pois desenhar no próprio corpo faz parte do ser humano desde os primórdios, e é uma das nossas formas legítimas e genuínas de expressão.
Espero que daqui a alguns anos, ter ou não tatuagens seja algo tão comum quanto ter ou não cabelo curto. Liberdade para ser como quisermos, isso é fundamental!”.


Letícia Lima, fonoaudióloga e blogueira.

“Fiz minhas tatuagens há 4 anos, e foi muito complicado, pois cresci numa igreja evangélica, então meus pais não me permitiam fazer tatuagens. Conversei com eles, expliquei meus motivos e convicções, até que os convenci. Sempre gostei de rock, meus pais também gostavam, mas não tinham nada característico, nada de tatuagens ou piercings. Me formei em fonoaudiologia, porque queria muito trabalhar com música e voz profissional, mas acabei indo pelo caminho da audiologia, o que me levou à trabalhar numa maternidade. Enquanto ainda trabalhava lá, fiz minha primeira tatuagem, na costela. Minha chefe comentou que havia achado legal. Conforme foi passando o tempo, optei por fazer outras tatuagens. Enquanto elas ainda eram escondidas, não tinha tanto problema. A partir do momento em que optei por fazer algo maior e mais exposto, sofri uma repreensão por parte da minha chefe. Ela me disse que eu tinha que cobrir. Fiquei em choque! Passei a trabalhar com roupas que cobriam minhas tatuagens e, com o tempo, resolvi não me preocupar mais com isso. Escolhi ser uma pessoa tatuada e segui minha escolha sem maiores problemas”.


Alex Romanosk, vocalista da banda Zed.

“Acredito que a tatuagem aos poucos está sendo descriminalizada e sendo vista como arte, e não algo relacionado a gangues, drogas etc. As pessoas procuram cada vez mais e os tatuadores se profissionalizam. Com isso, melhores trabalhos e, no final, todos ganham.
No começo, sofri alguns olhares de repreensão das pessoas, talvez por parte dos mais conservadores, mas nada que me preocupasse, nada que me atrapalhasse profissionalmente e nem no aspecto social.
Fiz tatuagens pois é algo que está muito ligado à tribo da qual faço parte, que é o rock. Cresci vendo meus ídolos com tatuagens e isso também me inspirou”.


O vocalista da banda Zed, Alex Romanosk – Foto: Mariana Fontes

Marcelo Barbosa, guitarrista do Angra e professor no Instituto GTR.

“Não sei se o profissional do futuro será efetivamente um profissional tatuado. O que sei é que hoje as pessoas que tem vontade de fazer tatuagem, não se sentem intimidadas ou com o futuro de certa forma ameaçado por isso. Elas simplesmente escolhem suas tatuagens, e as fazem sem maiores problemas.
Fiz minha primeira tatuagem há mais de 20 anos e a minha mãe quase infartou à época. Não por um preconceito dela e sim por medo do preconceito dos outros. Hoje, esse estigma em muito já está ultrapassado. As pessoas que realmente grilam com tatuagem são, na maioria das vezes, pessoas mais velhas, que ainda mantiveram o mesmo mindset de quando eram jovens. Acho que a grande quantidade de celebridades e profissionais de alto gabarito com tatuagem ajudaram e ajudam a desmistificar essa cultura.”


Anderson Bellini, vídeo maker.

“Tenho 8 tatuagens, todas relacionadas à bandas das quais sou fã. As mais recentes são o símbolo da banda suíça Gotthard, e a capa do disco “Angels Cry”, lançado em 1993 pela banda brasileira Angra. Acredito que a tatuagem é algo que já virou uma parte estética de todo ser humano, como por exemplo um corte ou mudança de cor do cabelo. Ao meu ver, a tatuagem já foi muito motivo de preconceito no passado, agora é algo muito natural. É até de certa forma difícil achar alguém que não tenha”.


Fonte das estatísticas do subtítulo: Economia - IG

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